A Batida Que Faz-te Sujo


AVISO

Em função do estado de pandemia em relação ao Covid-19, o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra estará encerrado ao público ate 31 de Março.

Cordiais cumprimentos,
CAPC

A Batida Que Faz-te Sujo, exposição que reúne vídeos e textos por Irineu Destourelles, estará patente de 22 de fevereiro a 4 de abril de 2020 na Sede do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra. A exposição inclui um vídeo, que esteve presente na sua mostra mais recente no Museu Calouste Gulbenkian, e outros trabalhos que emergem como resposta ao espaço e à necessidade da criação do espaço. Em seis salas do edifício, encontram-se trabalhos tematicamente relacionados com a condição psicológica do indivíduo no pós-colonial, que, no entanto, são construídos segundo estratégias diversas e abordam a identidade perante a memória coletiva, o corpo e a escrita como elementos des-reguladores.

Em 1952, Frantz Fanon faz referência à situação ambivalente do colonizado — que, assimilando a Língua e cultura do colonizador, acaba por perceber que jamais será por ele aceite como igual — e aos problemas psicológicos que o afetam como consequência das diferentes formas de violência colonial. Para Destourelles, o cenário que Fanon descreve continua a manifestar-se no contemporâneo segundo formas diferentes, visto que o «outro» não está imune à violência discursiva constituinte das narrativas culturais dominantes. Com base nas suas experiências como cabo-verdiano e africano que cresce em Lisboa e que vive na Europa, a instabilidade emocional e psicológica do estrangeiro, do indivíduo caracterizado como externo em contextos sociais, encontra-se no centro da sua prática artística. 

A escrita, que lhe permite, por vezes sem uma lógica clara, questionar o conhecimento segundo oposições e estruturas binárias formalizadas, é o elemento estruturante de muitos dos seus trabalhos, incluindo um trabalho em texto e dois dos vídeos presentes na exposição. How To Think, Feel and Act in this Space (Como Pensar, Sentir e Agir Neste Espaço), 2020, constituído por um conjunto de frases escritas diretamente sobre paredes de duas salas do espaço, re-visita a necessidade que levou à criação do CAPC, que emergiu como um lugar onde artistas da vanguarda portuguesa desenvolveram conceitos alternativos. Através das frases, Destourelles questiona a sua posição como indivíduo que, similarmente ao colonizado assimilado, se encontra simultaneamente entre a cumplicidade com e a contestação de normas sociais, propondo a si próprio novas formas de autoperceção e de relacionamento com o espaço. 

Person Tumbling, Voice and Text Concerning a Perverted Hybrid Man (Pessoa a Desarrochar, Voz e Texto Acerca de Uma Pessoa Híbrida Pervertida), 2020, inclui a voz de Destourelles em Língua Portuguesa, na primeira pessoa, como narrador, e legendagem em Língua Inglesa na terceira pessoa. A narrativa faz referência a um indivíduo caracterizado como híbrido num contexto contemporâneo, que apresenta similaridades com uma sociedade escravocrata em que a hierarquização e categorização de pessoas é integral ao fabrico da linguagem. The Beat Lyrics and Building Site (Batida, Líricas e Obra), 2020, conjuga o que se propõe que sejam quatro (bases) para líricas de canções de música pop-eletrónica e uma batida de música eletrónica composta por Trepiche. As líricas possuem conteúdo ideológico que exige do indivíduo que as consome que se condicione perante uma sociedade que a/o subalterniza. 

Questões relacionadas com a identidade perante a memória coletiva e o corpo pontuam a sua prática artística e são abordadas em dois vídeos que têm como base material apropriado e a performance. Auto-retrato, Reportagem e Férias em Família em Léopoldville e Quinxassa (Self-portrait, Newsreel and Family Holidays in Leopoldville and Kinshasa), 2020 (2017), que inclui cenas apropriadas de um filme doméstico com uma família portuguesa de férias em Léopoldville e Quinxassa, possivelmente antes e durante a Guerra Colonial Portuguesa (1962–1974), som apropriado da primeira reportagem efetuada na frente de guerra na Guiné-Bissau, em 1969, por um canal televisivo francês e a imagem digitalizada de um desenho por Destourelles, questiona a forma como a memória colonial contribui para processos identitários. Em Several Ways of Falling Ordered Differently (Varias Maneiras de Cair Organizadas Diferentemente), 2019, filmado na horta do seu pai nos subúrbios de Lisboa, onde este planta vegetais tropicais, Destourelles cai para a câmara várias vezes e essas quedas são apresentadas em mosaico, repetida e simultaneamente. A personagem assume cada queda como algo inevitável para lá do seus desígnios; no entanto, tenta controlar a forma como cai realizando atos de microrresistência, atos invisíveis que sublinham uma subjetividade condicionada. Ele compreende o espaço da performance simultaneamente como referência ao pós-colonial e ao pós-salazarismo em que cresceu e como o local onde o seu pai exerce nostalgia sobre o contexto colonial e salazarista do Cabo Verde da sua juventude. 


Biografia Irineu Destourelles

Irineu Destourelles (Santo Antão, Cabo Verde, 1974) trabalha primariamente com vídeo, escrita e desenho, focando-se em narrativas contraditórias relacionadas com a identidade pós-colonial. Destourelles frequentou o curso de Engenharia Agronómica na Universidade Técnica de Lisboa, é licenciado em Belas Artes pela Willem de Kooning Academy, Roterdão, e mestre em Belas Artes pela Central Saint Martins School of Art & Design, Londres. O seus trabalhos têm sido incluídos em projeções coletivas no ICA (Londres), Hangar Bicocca (Milão), e Transmediale (Berlim); e em exposições coletivas na Videobrasil 18 (São Paulo), Showroom MAMA (Roterdão), UNISA Art Gallery (Pretória). Expôs individualmente na Transmission Gallery (Glasgow) e no Museu Calouste Gulbenkian (Lisboa).