Miss understanding


A criança olhava para o velho que dançava e parecia dançar para toda a eternidade.
— Avô, porque danças desse modo?
— Sabes, meu pequeno, o homem é como um pião. A sua dignidade, a sua nobreza, o seu equilíbrio, ele não os alcança senão no movimento… O homem faz-se de se desfazer, não o esqueças nunca!
Marc-Alain Ouaknin

 

Pouco a pouco, o dia equilibra-se, repete-se, articula-se, desmembra-se, até um dia ser um. Afeiçoamo-nos ao pouco, ao oco do regulamento que se perpetua sem atrito, quase sem atrito, quase sem marcas que evidenciem a sua imperfeita uniformidade. Cadente ou ascendente, o ritmo nasce do deslocamento que faz com que o inaparente incida a sua linha oblíqua no comum. A percepção hesita na dificuldade de se acomodar ao que lhe é dado. Os dados que tendem a cair sempre sobre o mesmo lado mantêm-se indecisos sobre o vértice. Habituamo-nos a pôr uma pedra no sapato, a desequilibrar a monotonia esterilizada do enquadramento. Mancos, não como Jacob depois da luta com o anjo, mas na ausência de um anjo que nos faça frente. Do ritmo imposto ao posto arrítmico de quem coxeia, a lamela que abre o molde fere a peça, mas dessa ferida eclodem harmónicos que se multiplicam. Os dedos duplicam-se quando abanamos a mão a uma certa velocidade, demasiado rápido desaparecem, demasiado lentamente voltam a ser cinco, não se tratando de uma ilusão de óptica, mas da fragilidade de um espaço onde a efervescência da aparição deixa de ter relação com um original para ser a matriz de um jogo que descobrirá as suas próprias regras. A inocência do jogo é mais séria do que a maturidade do método; ela vive da possibilidade de fazer surgir a partir da mínima variação o máximo de liberdade. Não há jogo sem regras, seria o inesperado que desapareceria juntamente com o que se espera. Mas se o que se espera confina numa monotonia, por seu lado, o jogo que se descobre à medida que se joga é um constante rejuvenescer. Matisse dizia que o único jogo capaz de estar à altura da vida seria aquele em que cada movimento de uma peça alteraria todas as regras do mesmo. Há um tropeçar salutar, por vezes uma casualidade, um erro, que dá a ver algo que permanecia fechado na sua univocidade. Miss understanding não é um mero trocadilho, nem uma graçola que se extingue depois de uns segundos: a verdadeira reverberação do nome surge face ao trabalho da mesma. Miss understanding é a singular estereofonia de todas as suas significações a ecoarem simultaneamente, a delicadeza de uma compreensão que prefere não se deixar levar pelo que subentende, e o desvio de uma incompreensão que lhe permite descobrir outra ordem na arrumada desordem dos dias. Este ouvir em simultâneo dois ou mais sentidos diferentes é o que Barthes chama de anfibologia e dele nasce a fruição do entendimento. Trata-se de jouissance, algo que excede a compreensão, de modo que a terna violência do jogo se vai revelando no que se suspende sobre a incompreensão. Tropeçar no erro, encontrar o erro, descobrir o erro, é entrar na errância da aventura: a mutação oferecida pela possibilidade de outra compreensão, o prazer da leitura, seja de um trabalho, de um livro ou do mundo, está neste desabrochar de sentidos inesperados.

Ricardo Norte
O autor não segue a grafia do recente Acordo Ortográfico.

 

 

MissUnderstanding_MAR18Ana Rita António (Leiria, 1980) é uma artista visual multidisciplinar que vive e trabalha entre Portugal e a Noruega. Com formação em artes visuais pela ESAD das Caldas da Rainha, a Bergen National Academy of Arts e a Academia Rietveld, expõe há mais de 10 anos — individual e coletivamente — e tem desenvolvido a sua pesquisa artística apoiada por diversas bolsas de instituições portuguesas e norueguesas.