Recomeço do Mundo


 

Inaugura no dia 2 de junho de 2018

 

 

O que resta é um paradoxo

Referi uma vez o artista Bruce Nauman, a propósito do trabalho de Gonçalo Barreiros, num livro trabalhado a quatro mãos, entre mim e o artista, no que respeita ao contexto da sua utilização da palavra nas obras e nos títulos destas. A questão que me levou a apontar o fonema, a palavra escrita, a sua locução, ou a inscrição resgatada a um objecto apropriado e, posteriormente, recontextualizado — como, por exemplo, Sem título, Tampa de esgoto, de 2008 — mantém-se presente e é absolutamente indissociável da poética e do carácter disruptivo do seu trabalho, mas também da sua ressonância com a manualidade do trabalho de escultor e a sua dimensão conceptual.

Recomeço do Mundo é o título de uma instalação de grandes, e variáveis, dimensões que ocupa as três salas da arquitectura equilibrada e funcional que caracteriza o espaço do CAPC, o Centro de Artes Plásticas de Coimbra. Esta obra é trabalhada a partir de restos, desperdícios de outras obras, sendo aqui conveniente recordar a exposição realizada na Galeria Vera Cortês, sob o título Declaração Amigável, também com uma única obra no espaço da galeria. Nesta obra, datada de 2017, Gonçalo Barreiros esventrava a galeria, deixando o seu espaço amplo quase intocado, utilizando apenas uma parede com o sentido de concentrar o corpo do espectador em confronto com os círculos informes que constituem essa escultura, que nos reenvia para modelos de câmaras de ar de diferentes dimensões pertencentes a velocípedes ou outros veículos motores. Mas esses objectos encostados, como se estivessem numa oficina a aguardar a resolução da hipotética «declaração amigável», remetem para um paradoxo relacional entre a possibilidade remota da referência utilizada e a operatividade do objecto artístico enquanto palimpsesto do seu significado material e simultaneamente da sua nomeação, que se perpetua na reinscrição da palavra na nossa memória.

Nas duas obras que refiro, existem algumas aproximações e outras tantas contradições. O que as aproxima, além do factor humano presente na manualidade que o trabalho do ferro ou do aço exige, é o pensamento sobre o espaço e o seu contexto, patente na forma como são expostas, ocupando de forma diversa todo o espaço, onde a obra e o seu contentor se fundem como um objecto singular e específico. Concorre para esta aproximação a disposição do título, como já mencionei, e acentuo o termo «disposição», dado que este é de tal forma operativo e desestabilizador dos vários sentidos que as obras vão activando, fazendo parte da composição destas, tal como a pintura que reveste os metais de que são feitas e que têm uma enorme importância no tempo de observação e na estranheza a que é sujeito o  espectador.

Por um lado, o Recomeço do Mundo é na sua totalidade uma metáfora da reinvenção do mundo enquanto experiência subjectiva da obra que se mostra na intermitência do seu reflexo lumínico e da extensão das salas do CAPC, e que reaparecendo desaparece por entre fios de cor, lâminas polícromas ou corpos helicoidais que aparentemente nos guiam o olhar. Mas esta não é uma obra para observar num exercício de aproximação e distanciamento em que se reconhecem as diferenças de grandeza entre as formas e os micro-acontecimentos que estas encerram. Aparece-nos como uma paisagem que, ao ser percorrida, nos faz sentir a inabilidade do corpo que a pode ferir, por exemplo, pisando-a, o que nos coloca perante a contingência do espaço frente ao corpo que já não o reconhece. Por isso, é provável que seja necessário recomeçar a reaprender a olhar, a reconstituir a nossa corporalidade com uma capacidade perceptiva que poderíamos identificar como performativa. Mas a performatividade não é a intenção do artista, porque a pulsão que está na base desta imensidão é apenas uma aritmética simples que adiciona elementos na sua composição espacial e na dimensão que estes podem acrescentar a outros. Todos provenientes do desbaste, da acção transformadora que outras obras exigiram e que foi ficando como se o ateliê fosse, no seu limite, excessivo: um imenso repositório de memórias e de procedimentos. E no final, essas sobras são nada menos do que a matéria iniciática e necessária para repensar uma ideia de espaço sem perder de vista o local da exposição e as suas condições arquitectónicas.

Mas, por outro lado, o trabalho de Gonçalo Barreiros é pautado por uma disciplina austera que se concentra nas condições e relações que a sua obra pode criar na exposição enquanto dispositivo perceptivo que vai accionar todos os sentidos humanos. Seja através de um desenho, do som, de um ruído, de uma palavra, de um zumbido ou de uma estridência metálica; mas, também, da instabilidade do equilíbrio, da diferença de escalas e proporções, ou da ausência da cor e, paradoxalmente, da sua presença multifilar, entrecortada em planos e linhas dispersos como se uma anamorfose se apoderasse do espaço. Neste caso em concreto, dos três espaços das galerias.

Em Recomeço do Mundo, Gonçalo Barreiros reconfigura uma ideia que se materializa como um comentário ao caos, não ao caos cósmico, mas a uma ideia de caducidade das normas e da métrica que a escultura/instalação indexa a esse estado iniciático que se constrói a partir do que já não é nomeável, já não tem forma que o defina e, por isso mesmo, é uma matéria em estado puro, pronta a ser trabalhada como se fosse a primeira vez, embora contendo todas as anteriores que ali (re)começam. Contudo, esta exposição, tal como a obra que inicialmente referi, Sem título, Tampa de esgoto, de 2008, é uma tentativa, e um desafio, que diz respeito a uma questão importante na história da arte: a especificidade de uma obra num contexto e num espaço determinado, e não qualquer outro. O que me faz recordar, e retomar, uma citação de Richard Serra que passo a transcrever: «The specificity of site-oriented works means that they are conceived for, dependent upon, and inseparable from their location. Scale, size, and placement of sculptural elements result from an analysis of the particular environmental components of a given context. The preliminary analysis of a given site takes into consideration not only formal but social and political characteristics of the site.»

O projecto para as galerias do CAPC é uma proposta que encerra em si mesma a reconstrução desse espaço enquanto lugar de trabalho que se prolonga sem princípio nem fim que o defina, pois, ao entrarmos nele, constituímo-nos como uma parte do seu movimento perpétuo que só ali pode ter a sua existência, independentemente do devir, mas sem dúvida como um desenho que introduz um vínculo orgânico no rigor e na memória da sua arquitectura.

João Silvério∗

∗ O autor não segue o recente Acordo Ortográfico.

 

 

 

GoncaloBarreiros_JUN18 certo

 

 

Gonçalo Barreiros vive e trabalha em Lisboa. É formado em Escultura pela escola Ar.Co e mestre em Belas Artes, pela Slade School of Fine Arts de Londres, com a bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 2004, fez a residência artística atribuída pela CML em Budapeste.

Das suas exposições individuais, destacam-se: Vraum, Chiado 8 (Lisboa, 2013); n.º 17, Empty Cube, no CAPC – Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (2013), e Woodpecker, na Ermida de Bélem (Lisboa, 2012).

O seu trabalho integra várias exposições coletivas — nomeadamente Involuntary Memory, Luís Adelantado (Valência, 2017); Sala dos Gessos, Museu da Eletricidade (Lisboa, 2016); Sem título é um bom título, Ar Sólido (Lisboa, 2016); Materiais Transitórios, Sociedade Nacional de Belas Artes (Lisboa, 2016); Canal Caveira, Cordoaria Nacional (Lisboa, 2015); O Riso, Museu da Eletricidade (Lisboa, 2012); Plus 1, Perry Rubenstein Gallery (Nova Iorque, 2010); Triangle Room (Programa Curatorial do Chelsea College of Art and Design, 2008) — e o Prémio EDP – Novos Artistas, Museu de Serralves (Porto, 2003).

Nos últimos anos, tem apresentado regularmente o seu trabalho na

Galeria Vera Cortês, destacando-se as suas exposições individuais 3/4 (2006), quero eu fazer as coisas… (2008), Nosey Parker e, mais recentemente, Declaração Amigável (2017).