{"id":133,"date":"2012-03-10T13:56:29","date_gmt":"2012-03-10T13:56:29","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=133"},"modified":"2020-03-10T12:01:55","modified_gmt":"2020-03-10T12:01:55","slug":"pedro-cabrita-reis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/pedro-cabrita-reis\/","title":{"rendered":"<b>Ciclo Santa Cruz<\/b><br>Pedro Cabrita Reis"},"content":{"rendered":"<p>Olhar uma pintura.<\/p>\n<p>Uma e mais uma e outra vez ainda, desaprender.Aprender a n\u00e3o ver. Partir, ir procurar o sopro raro de uma luz interior, tacteando o sil\u00eancio antes que sons e cheiros se extingam, sombras de coisas apenas entrevistas e de outras mais remotas lembradas como se de verdades se tratasse e que, talvez por medo, julg\u00e1mos por instantes nossas.<\/p>\n<p>N\u00e3o vos falo. N\u00e3o saberia dizer-vos como alguns, esses outros que sabem, os l\u00e1bios movendo-se esquecidos.Caminho, da minha surdez pressinto esse rumor que no meu encal\u00e7o quereria alisar o desenho do meu andar.<\/p>\n<p>Fui por outras veredas. J\u00e1 quase desfeitas, p\u00f3 de um c\u00e9u que perdeu as l\u00e1grimas, o tempo acabando para os meus olhos nesses passos andados. Mas antes, trarei todas as pedras e farei uma casa para nela dizer os nomes deles e os lugares de onde vieram. E tamb\u00e9m os tra\u00e7os, os reflexos e as cores onde os fui vendo, os das terras mais acima, aqueles do outro lado de todas as \u00e1guas, alguns de longes onde a noite nasce maior do que a luz.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como foi o primeiro. Um deve ter sido. Outros, ap\u00f3s esse, vieram, alguns chegar\u00e3o depois, sei-o, vi alinhados por sobre todas as paredes os algarismos do seu tempo e os do meu tamb\u00e9m. Luz \u00fanica, a que trazem, t\u00e9nue, esse quase tudo que s\u00e3o as poucas coisas que sabemos nomear, uma flor, as m\u00e3os, aquela \u00e1rvore, algumas nuvens, uma concha, a infinita clareza de um quadrado negro, uma cabe\u00e7a de c\u00e3o na diagonal de um muro, l\u00e1grimas num rosto de sangue, um cavalo iluminado de horror. Olhar a pintura.<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio, chegou isto a mim. Veio de horas de h\u00e1 muito tempo, de lugares e perspectivas quase perfeitas, de cores puras, \u00fanicas na sua vastid\u00e3o muito para al\u00e9m de onde as m\u00e3os poderiam chegar e sei agora que \u00e9 verdade, e que assim ficar\u00e1, porque um dia uma mulher me disse de seu filho, que este lhe apertara com desespero na sua a m\u00e3o pequena, e que a si se chegara com a mesma tristeza de certa pintura que haviam visto na cidade onde, dourada, a pedra flutua sobre as \u00e1guas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Cabrita Reis, Lisboa, 12 de Outubro de 2010, j\u00e1 quase de dia.<\/p>\n<div id=\"attachment_1044\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/IMG_35431.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1044\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1044 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/IMG_35431.jpg\" alt=\"l\" width=\"550\" height=\"825\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/IMG_35431.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/IMG_35431-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1044\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Pedro Cabrita Reis<\/strong> | <em>Altar Piece #2<\/em>, 2010 | esmalte em alum\u00ednio, madeira, tecido, vidro laminado e borracha| 372 x 400 x 160 cm | colec\u00e7\u00e3o do artista (PCRSTUDIO) | Instala\u00e7\u00e3o da obra no Caf\u00e9 Santa Cruz<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><b>Santa Cruz<\/b><\/em><\/p>\n<p>Com <i>Altar Piece #2<\/i>, de Pedro Cabrita Reis, o CAPC prossegue um ciclo de exposi\u00e7\u00f5es na cabeceira&nbsp;do Caf\u00e9 Santa Cruz, lugar emblem\u00e1tico da baixa coimbr\u00e3 e ainda hoje um espa\u00e7o polarizador de muitas sinergias locais.<\/p>\n<p>No lugar do altar, na \u201ccabe\u00e7a de Cristo\u201d, organizar-se-\u00e3o uma s\u00e9rie de iniciativas art\u00edsticas explorando critica e reflexivamente os protocolos da representa\u00e7\u00e3o numa sociedade ela pr\u00f3pria profundamente iconocrata e marcada por processos de media\u00e7\u00e3o distrativos, escapistas&nbsp;e de crescente ambiguidade sem\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Num lugar que numa primeira fase possu\u00eda um posicionamento monoss\u00e9mico e prescritivo, onde se ancorava a liturgia do divino, os sons, as texturas, os odores, o impacto visual desses momentos, e que pelos percal\u00e7os, inibi\u00e7\u00f5es e ansiedades da hist\u00f3ria grande se foi acomodando a novas fun\u00e7\u00f5es de que o Caf\u00e9 inclusivo, plural, tertualiano de Santa cruz \u00e9 a mais recente; num lugar com este \u201cexcesso de consci\u00eancia hist\u00f3rica\u201d, o CAPC prop\u00f5e-se ensaiar um di\u00e1logo com a cidade em que vive e f\u00e1-lo atrav\u00e9s do <i>problema art\u00edstico <\/i>(o que \u00e9 a arte? quando h\u00e1 arte?), problema que nos \u00f9ltimos cinquenta anos tem vindo a debater, a tentar clarificar mas tamb\u00e9m a indeterminar ; a aten\u00e7\u00e3o inquiridora, proponente do CAPC perante este problema expressa-se aqui, neste momento inicial, tanto na sua condi\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia, de algo que \u00e9 extr\u00ednseco, que \u00e9 da ordem do sujeito que observa, que convive, como na sua condi\u00e7\u00e3o de forma significante, de obra.<\/p>\n<p>Esta iniciativa do CAPC agrega-se a um tema, os protocolos da representa\u00e7\u00e3o, que persiste e apura-se no objecto art\u00edstico contempor\u00e2neo com outros desenlaces pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Com efeito n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 aud\u00edveis mas actuantes na actualidade da pr\u00e1tica art\u00edstica as permuta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que a revolu\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica modernista estabeleceu entre uma est\u00e9tica da compara\u00e7\u00e3o (,a dramatiza\u00e7\u00e3o narrativa do aparente, a dial\u00e9ctica entre verosimilhan\u00e7a e artif\u00edcio, entre segredo e transpar\u00eancia) e uma est\u00e9tica da compar\u00eancia (do nomeado e do irrepresent\u00e1vel).<\/p>\n<p>Ao destituir o <i>imitatio <\/i>como o \u00fanico principio activo do acto de representa\u00e7\u00e3o (de recoloca\u00e7\u00e3o no mundo) a cultura art\u00edstica do s\u00e9culo XX, independentemente do paradigma ou periodiza\u00e7\u00e3o que se proponha, abriu para o espectador (mesmo para o mais inexperiente) novas possibilidades de negocia\u00e7\u00e3o e de mobiliza\u00e7\u00e3o po\u00e9tica na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo vivido. Essa Arte aproximou mesmo que residualmente o interesse humano do interesse art\u00edstico obrigando o sujeito que observa a convalescer do pathos determinista do pitoresco, do \u201cf\u00e1cil\u201d, do \u201cexpect\u00e1vel\u201d, do \u201csemelhante\u201d, obrigando-o para parafrasear Kant, a \u201caudare sapare (ousar saber)\u201d. Se conseguiu ter \u00eaxito ser\u00e1 outra discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Certo \u00e9, contudo e contraditoriamente, que quando nada \u00e9 reconhec\u00edvel, quando n\u00e3o s\u00f3 se prolonga o rastreio perceptivo do espectador como se desfamiliariza, se torna estranho, dif\u00edcil de interpretar aquilo que se d\u00e1 a ver, a Arte, (e as obras que aqui estar\u00e3o expostas disso falar\u00e3o), desenvolve, (aperfei\u00e7oando, criticando, renovando os mecanismo da representa\u00e7\u00e3o), um esfor\u00e7o hist\u00f3rico para enraizar no mesmo plano conceptual o \u201cN\u00f3s\u201d e o \u201cEles\u201d, isto \u00e9, a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre um Eu (eu sou Imago, logo existo) e a diferen\u00e7a do Outro (a persist\u00eancia de outras antropologias da identidade e da percep\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o do mundo); a Arte treina-nos a interrogarmos o mundo fora dos nosso fins, das nossas preconcep\u00e7\u00f5es. E \u00e9 esse esfor\u00e7o que aqui na cabeceira de Santa Cruz tamb\u00e9m se positiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Pousada e Carlos Antunes,&nbsp;Janeiro de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhar uma pintura. Uma e mais uma e outra vez ainda, desaprender.Aprender a n\u00e3o ver. 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