{"id":162,"date":"2012-09-22T14:49:03","date_gmt":"2012-09-22T14:49:03","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=162"},"modified":"2020-03-10T11:54:07","modified_gmt":"2020-03-10T11:54:07","slug":"moirika-reker-gilberto-reis-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/moirika-reker-gilberto-reis-2\/","title":{"rendered":"<b>Ciclo Santa Cruz<\/b><br>Moirika Reker Gilberto Reis"},"content":{"rendered":"<p>Tantas casas.<\/p>\n<p>\u201cAo olhar para o c\u00e9u em determinadas condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas, de hora e de luz, \u00e9 poss\u00edvel observar tr\u00eas sat\u00e9lites que foram lan\u00e7ados para o espa\u00e7o entre 1953\u20131958 e ali permanecem.<\/p>\n<p>O Hope tem a forma de l\u00e1pis atarracado, de cor prateada (&#8230;) no seu interior est\u00e3o os corpos (&#8230;) de tr\u00eas homens.<\/p>\n<p>Pelo menos quatro vezes maior que o primeiro, liso, em forma de ovo, de uma extraordin\u00e1ria cor laranja (&#8230;) temos o L.E. (Lois Egg) (&#8230;) em homenagem a Lois Berger a amada mulher do construtor, que o acompanhou e com ele ficou l\u00e1 em cima a girar, a girar eternamente (&#8230;) bem como mais sete companheiros.<\/p>\n<p>Se deslocarmos o \u00f3culo vinte e quatro graus encontramos Faith, o \u00faltimo<\/p>\n<p>a ser lan\u00e7ado, para tentar aquilo que os outros n\u00e3o tinham conseguido.<\/p>\n<p>Tem um vulto semelhante ao Hope, s\u00f3 que um pouco maior. Pintado \u00e0s riscas amarelas e pretas que ainda hoje se distinguem. Partiu com cinco homens.<\/p>\n<p>Nem uma mensagem, nem um sinal de vida.Tudo foi selado pelo sil\u00eancio (&#8230;) espalhados pelo nosso pequeno mundo, permanecem os seus t\u00famulos vazios. No c\u00e9u continuam a girar, provavelmente incorruptos (&#8230;) no meio<\/p>\n<p>do c\u00e9u os mortos.\u201d<\/p>\n<p>Como tudo isto \u00e9 aterrador e como tudo isto se torna normal.<\/p>\n<p>Viu homens disparando pistolas uns contra os outros, e um barco a remos, onde havia uma fam\u00edlia com crian\u00e7as pequenas, ser esmagado e afundado por uma lancha.<\/p>\n<p>Chorou mas continuava a observar como se desde sempre soubesse ser esta a condi\u00e7\u00e3o humana. O alongamento dos corpos, as queimaduras nos flancos, nos bra\u00e7os nas unhas, e os olhos. Olhos fixos fixos.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito que a verdade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 utiliz\u00e1vel para resolver os nossos dilemas.<\/p>\n<p>Lembrou-se do pai \u00e0 mesa de natal \u201cn\u00e3o tenhais medo, o amor \u00e9 como o fogo n\u00e3o se propaga onde o ar escasseia.\u201d<\/p>\n<p>Tantas casas.<\/p>\n<p>A lentid\u00e3o no tr\u00e2nsito devo reconhecer que me ajuda a contemplar os corpos desmembrados dos acidentes.<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201cNem uma mensagem, nem um sinal de vida. Tudo foi selado pelo sil\u00eancio (&#8230;)&nbsp;<\/i><\/p>\n<p><i>espalhados pelo nosso pequeno mundo, permanecem os seus t\u00famulos vazios.&nbsp;<\/i><\/p>\n<p><i>No c\u00e9u continuam a girar, provavelmente incorruptos<\/i><\/p>\n<p><i>&nbsp;(&#8230;) no meio do c\u00e9u, os mortos.\u201d<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_444\" style=\"width: 1946px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/morika-reker-set-2012-1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-444\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-444 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/morika-reker-set-2012-1.jpg\" alt=\"morika reker set 2012 (1)\" width=\"1936\" height=\"2592\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/morika-reker-set-2012-1.jpg 1936w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/morika-reker-set-2012-1-224x300.jpg 224w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/morika-reker-set-2012-1-765x1024.jpg 765w\" sizes=\"(max-width: 1936px) 100vw, 1936px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-444\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Moirika Reker Gilberto Reis |<\/strong>&nbsp;<em>Tantas casas<\/em>, 2012 | Instala\u00e7\u00e3o da obra&nbsp;no Caf\u00e9 Santa Cruz<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><b>Territ\u00f3rio e Ac\u00e7\u00e3o<\/b><\/em><\/p>\n<p>Inscreve-se este novo ciclo no programa de estrat\u00e9gias que se endere\u00e7am \u00e0 sociedade civil, que passam por posicionar algumas das actividades do CAPC em lugares da cidade onde haja uma maior circula\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica; pretende-se especificamente captar a aten\u00e7\u00e3o daqueles que n\u00e3o frequentam habitualmente o CAPC ou sequer conhecem o seu papel na produ\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica contempor\u00e2nea e desse modo socializar a mais-valia art\u00edstica e simb\u00f3lica que se concretiza nos diferentes espa\u00e7os do CAPC (CAPC-Sereia, CAPC-Sede). De espa\u00e7o cultural expectante que aguarda os seus espectadores, os seus visitantes, de espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o do campo art\u00edstico contempor\u00e2neo o CAPC assumiria um contrato social com a cidadania an\u00f3nima de Coimbra, realizaria uma migra\u00e7\u00e3o dos seus conte\u00fados para o c\u00edrculo da Civita Augescens, isto \u00e9 para o interior din\u00e2mico de Coimbra, para a sua capacidade de recep\u00e7\u00e3o e acolhimento dos outros, para a cultura da plurietnicidade e da supranacionalidade que definem o esfor\u00e7o desta urbe em se afastar do decl\u00ednio demogr\u00e1fico e econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>\u00c9 o CAPC a descer \u00e0 cidade, inquirindo e desconcertando os cidad\u00e3os, mobilizando o quotidiano, promovendo a capacidade de recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. O ciclo geral Territ\u00f3rio e ac\u00e7\u00e3o ser\u00e1 constitu\u00eddo por quatro ciclos: Santa Cruz, Espelho, Linha defensiva do Mondego e Link.<\/p>\n<p><em><b>Santa Cruz<\/b><\/em><\/p>\n<p>Com <i>Tantas casas, <\/i>de Moirika Reker Gilberto Reis, o CAPC prossegue um ciclo de exposi\u00e7\u00f5es na cabeceira do Caf\u00e9 Santa Cruz, lugar emblem\u00e1tico da baixa coimbr\u00e3 e ainda hoje um espa\u00e7o polarizador de muitas sinergias locais.<\/p>\n<p>No lugar do altar, na \u201ccabe\u00e7a de Cristo\u201d, organizar-se-\u00e3o uma s\u00e9rie de iniciativas art\u00edsticas explorando critica e reflexivamente os protocolos da representa\u00e7\u00e3o numa sociedade ela pr\u00f3pria profundamente iconocrata e marcada por processos de media\u00e7\u00e3o distrativos, escapistas e de crescente ambiguidade sem\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Num lugar que numa primeira fase possu\u00eda um posicionamento monoss\u00e9mico e prescritivo, onde se ancorava a liturgia do divino, os sons, as texturas, os odores, o impacto visual desses momentos, e que pelos percal\u00e7os, inibi\u00e7\u00f5es e ansiedades da hist\u00f3ria grande se foi acomodando a novas fun\u00e7\u00f5es de que o Caf\u00e9 inclusivo, plural, tertualiano de Santa cruz \u00e9 a mais recente; num lugar com este \u201cexcesso de consci\u00eancia hist\u00f3rica\u201d, o CAPC prop\u00f5e-se ensaiar um di\u00e1logo com a cidade em que vive e f\u00e1-lo atrav\u00e9s do&nbsp;<i>problema art\u00edstico&nbsp;<\/i>(o que \u00e9 a arte? quando h\u00e1 arte?), problema que nos \u00f9ltimos cinquenta anos tem vindo a debater, a tentar clarificar mas tamb\u00e9m a indeterminar ; a aten\u00e7\u00e3o inquiridora, proponente do CAPC perante este problema expressa-se aqui, neste momento inicial, tanto na sua condi\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia, de algo que \u00e9 extr\u00ednseco, que \u00e9 da ordem do sujeito que observa, que convive, como na sua condi\u00e7\u00e3o de forma significante, de obra.<\/p>\n<p>Esta iniciativa do CAPC agrega-se a um tema, os protocolos da representa\u00e7\u00e3o, que persiste e apura-se no objecto art\u00edstico contempor\u00e2neo com outros desenlaces pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Com efeito n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 aud\u00edveis mas actuantes na actualidade da pr\u00e1tica art\u00edstica as permuta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que a revolu\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica modernista estabeleceu entre uma est\u00e9tica da compara\u00e7\u00e3o (,a dramatiza\u00e7\u00e3o narrativa do aparente, a dial\u00e9ctica entre verosimilhan\u00e7a e artif\u00edcio, entre segredo e transpar\u00eancia) e uma est\u00e9tica da compar\u00eancia (do nomeado e do irrepresent\u00e1vel).<\/p>\n<p>Ao destituir o&nbsp;<i>imitatio&nbsp;<\/i>como o \u00fanico principio activo do acto de representa\u00e7\u00e3o (de recoloca\u00e7\u00e3o no mundo) a cultura art\u00edstica do s\u00e9culo XX, independentemente do paradigma ou periodiza\u00e7\u00e3o que se proponha, abriu para o espectador (mesmo para o mais inexperiente) novas possibilidades de negocia\u00e7\u00e3o e de mobiliza\u00e7\u00e3o po\u00e9tica na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo vivido. Essa Arte aproximou mesmo que residualmente o interesse humano do interesse art\u00edstico obrigando o sujeito que observa a convalescer do&nbsp;<em>pathos<\/em>&nbsp;determinista do pitoresco, do \u201cf\u00e1cil\u201d, do \u201cexpect\u00e1vel\u201d, do \u201csemelhante\u201d, obrigando-o para parafrasear Kant, a \u201caudare sapare (ousar saber)\u201d. Se conseguiu ter \u00eaxito ser\u00e1 outra discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Certo \u00e9, contudo e contraditoriamente, que quando nada \u00e9 reconhec\u00edvel, quando n\u00e3o s\u00f3 se prolonga o rastreio perceptivo do espectador como se desfamiliariza, se torna estranho, dif\u00edcil de interpretar aquilo que se d\u00e1 a ver, a Arte, (e as obras que aqui estar\u00e3o expostas disso falar\u00e3o), desenvolve, (aperfei\u00e7oando, criticando, renovando os mecanismo da representa\u00e7\u00e3o), um esfor\u00e7o hist\u00f3rico para enraizar no mesmo plano conceptual o \u201cN\u00f3s\u201d e o \u201cEles\u201d, isto \u00e9, a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre um Eu (eu sou Imago, logo existo) e a diferen\u00e7a do Outro (a persist\u00eancia de outras antropologias da identidade e da percep\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o do mundo); a Arte treina-nos a interrogarmos o mundo fora dos nosso fins, das nossas preconcep\u00e7\u00f5es. E \u00e9 esse esfor\u00e7o que aqui na cabeceira de Santa Cruz tamb\u00e9m se positiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Pousada e Carlos Antunes,&nbsp;Janeiro de 2012<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tantas casas. \u201cAo olhar para o c\u00e9u em determinadas condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas, de hora e de luz, \u00e9 poss\u00edvel observar tr\u00eas sat\u00e9lites que foram lan\u00e7ados para o espa\u00e7o entre 1953\u20131958 e ali permanecem. O Hope tem a forma de l\u00e1pis atarracado, de cor prateada (&#8230;) no seu interior est\u00e3o os corpos (&#8230;) de tr\u00eas homens. 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