{"id":195,"date":"2013-02-02T16:32:20","date_gmt":"2013-02-02T16:32:20","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=195"},"modified":"2020-03-10T12:31:01","modified_gmt":"2020-03-10T12:31:01","slug":"rodrigo-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/rodrigo-oliveira\/","title":{"rendered":"<b>Ciclo Santa Cruz<\/b><br>Rodrigo Oliveira"},"content":{"rendered":"<p>Aqui queremos falar da \u201carquitectura interna\u201d de dois dispositivos figurativos e das rela\u00e7\u00f5es mutuamente inclusivas produzidas por uma empiria da recep\u00e7\u00e3o em que a cultura de massas, a auto-reflexividade da arte avan\u00e7ada, a convencionaliza\u00e7\u00e3o do papel moeda, a serializa\u00e7\u00e3o das imagens secund\u00e1rias, a coloniza\u00e7\u00e3o capitalista do est\u00e9tico e a institucionaliza\u00e7\u00e3o do transgressivo se constitu\u00edram como espa\u00e7os da teoria em torno destes objectos. Omar Calabrese escreve no ensaio intitulado <em>A intertextualidade em pintura<\/em>, uma leitura dos embaixadores de Holbein que \u201cquanto mais se busca um efeito de verosimilhan\u00e7a, mais se deve recorrer a um m\u00e1ximo de artif\u00edcio\u201d. A intensifica\u00e7\u00e3o normativa expl\u00edcita na linguagem fotojornal\u00edstica do Guerrilero Heroico (1960), a consci\u00eancia de um fora de campo, a prepara\u00e7\u00e3o intuitiva e \u201coportunista\u201d do instante (o momento em que Che se desagrega da multid\u00e3o naquele dia de Mar\u00e7o de 1960 e se torna um alvo fotogr\u00e1fico), a mise en sc\u00e9ne de uma t\u00e9cnica compositiva que \u201cesconde o conflito\u201d entre \u201ca profundidade\u201d da fotografia, o \u201despa\u00e7o mim\u00e9tico\u201d, e a \u201csuperf\u00edcie\u201d da fotografia, \u201co espa\u00e7o da actividade\u201d fotogr\u00e1fica; \u00e9 toda essa materialidade sensorial pr\u00f3pria do acto de fotografar que qualifica o problema filos\u00f3fico da imagem de Korda: o uso de uma m\u00e1quina estrutural para construir a mem\u00f3ria de uma semelhan\u00e7a implica uma discuss\u00e3o sobre o verdadeiro e o id\u00eantico; uma discuss\u00e3o em que a condi\u00e7\u00e3o intertextual da \u201cprofundidade\u201d da imagem prevalece sobre a condi\u00e7\u00e3o est\u00e1tica da \u201csuperf\u00edcie\u201d da imagem.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio de estranhamento perceptivo de Rodrigo, um Che circunscrito a um \u00f3culo e materializado por uma prolongada colec\u00e7\u00e3o de tampas de garrafa, como que vem reiterar essa dupla natureza de superf\u00edcie e profundidade, de apar\u00eancia e de ambiguidade do signo \u00edc\u00f3nico. A fotografia de Korda \u00e9 insepar\u00e1vel de um conflito que se produz em torno do estatuto do indiv\u00edduo concreto e outrora vivo quando este se transforma numa \u201csuperf\u00edcie\u201d, quando a sua actualidade se converte num recipiente simb\u00f3lico onde, como neste caso, mito e radicalidade chique ocultam na abstrac\u00e7\u00e3o do rebelde rom\u00e2ntico, o pensamento anti-imperialista de um marxista latino-americano, de um indiv\u00edduo (ainda inc\u00f3modo para o status quo do Ocidente contempor\u00e2neo) que invertendo os termos do her\u00f3i tr\u00e1gico e isolado conseguiu viver a vida que desejou viver, conseguiu ser a humanidade que quis afirmar e viveu o sobressalto revolucion\u00e1rio da humanidade dos dominados do S\u00e9c. XX. A exalta\u00e7\u00e3o dessa imagem como um texto visual escrito a mil m\u00e3os come\u00e7a no ano da morte de Che Guevara. Existe, ali\u00e1s, uma complicada genealogia de agentes da mediatiza\u00e7\u00e3o deste clich\u00e9 de Korda. Una cuba libre por favor, ingressa na expans\u00e3o dessa s\u00e9rie hist\u00f3rica e interpretativa do Guerrilero Heroico (1960). Rodrigo Oliveira produziu um objecto intersist\u00e9mico, (uma obra em contacto com o poder generativo de outras obras e o arb\u00edtrio de outros discursos), recorrendo \u00e0 hist\u00f3ria da arte, \u00e0 cultura pict\u00f3rica do retrato (onde o tactilidade da arte infantil e a faktura sofisticada jogam \u00e0s escondidas), \u00e0 modernidade p\u00f3s-impressionista e aos jogos de linguagem visual associados \u00e0s pesquisas da \u00f3ptica e \u00e0s terap\u00eauticas da percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este objecto argumenta contra o isolamento a que o campo art\u00edstico continua a ser submetido no mundo das manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e das estrat\u00e9gias de alteridade. A arte j\u00e1 n\u00e3o procura o lugar da transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como seu lugar de transforma\u00e7\u00e3o mas procura que a sua necessidade operativa de se renovar n\u00e3o seja transformado no espect\u00e1culo da liberdade. O poder deste s\u00edmbolo colectivo cuja chave interpretativa possui diferentes sincronias, todas elas verdadeiras para a imagem mas apenas algumas para o sujeito observado, estimula que em Una Cuba Libre por favor, o personagem \u201cChe\u201d seja presentificado como um estranho floril\u00e9gio onde um prot\u00f3tipo (um Che \u00fanico, irrepet\u00edvel, uma hist\u00f3ria que j\u00e1 n\u00e3o pode voltar a ser sen\u00e3o como simulacro) converge numa repeti\u00e7\u00e3o (o Che como ideia como ideia).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Pousada<\/p>\n<div id=\"attachment_636\" style=\"width: 1836px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/una-cuba-libre-por-favor.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-636\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-636\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/una-cuba-libre-por-favor.jpg\" alt=\"Rodrigo Oliveira | Una Cuba libre por favor #2, 2010 | Tampas de diferentes cores e dimens\u00f5es coladas com resina epoxy crystal em madeira pintada | 200 cm de di\u00e2metro\" width=\"1826\" height=\"1826\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/una-cuba-libre-por-favor.jpg 1826w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/una-cuba-libre-por-favor-150x150.jpg 150w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/una-cuba-libre-por-favor-300x300.jpg 300w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/una-cuba-libre-por-favor-1024x1024.jpg 1024w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/una-cuba-libre-por-favor-500x500.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1826px) 100vw, 1826px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-636\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Rodrigo Oliveira<\/strong> |<em> Una Cuba libre por favor #2<\/em>, 2010 | Tampas de diferentes cores&nbsp;e dimens\u00f5es coladas com resina epoxy crystal em madeira pintada | 200 cm de di\u00e2metro<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aqui queremos falar da \u201carquitectura interna\u201d de dois dispositivos figurativos e das rela\u00e7\u00f5es mutuamente inclusivas produzidas por uma empiria da recep\u00e7\u00e3o em que a cultura de massas, a auto-reflexividade da arte avan\u00e7ada, a convencionaliza\u00e7\u00e3o do papel moeda, a serializa\u00e7\u00e3o das imagens secund\u00e1rias, a coloniza\u00e7\u00e3o capitalista do est\u00e9tico e a institucionaliza\u00e7\u00e3o do transgressivo se constitu\u00edram como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[29,14,13,24,4,6,11,12],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195"}],"collection":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=195"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3191,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195\/revisions\/3191"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/197"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=195"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=195"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=195"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}