{"id":2004,"date":"2017-02-28T11:31:50","date_gmt":"2017-02-28T11:31:50","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=2004"},"modified":"2020-03-10T18:12:12","modified_gmt":"2020-03-10T18:12:12","slug":"camaleonica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/camaleonica\/","title":{"rendered":"<b>Camale\u00f3nica<\/b>"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Camale\u00f3nica-Cartaz.png\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2006\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Camale\u00f3nica-Cartaz.png\" alt=\"Camale\u00f3nica [Cartaz]\" width=\"1121\" height=\"1586\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Camale\u00f3nica-Cartaz.png 1121w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Camale\u00f3nica-Cartaz-212x300.png 212w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Camale\u00f3nica-Cartaz-724x1024.png 724w\" sizes=\"(max-width: 1121px) 100vw, 1121px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Selva camale\u00f3nica<\/strong><\/p>\n<p>Henri Rousseau, conhecido pelas suas pinturas de selvas e outras paisagens ex\u00f3ticas, nunca saiu de Fran\u00e7a em toda a sua vida. Pintou a partir de imagens que circulavam, do que via nos jardins bot\u00e2nicos ou zool\u00f3gicos e das hist\u00f3rias que ouvia sobre lugares distantes e secretos. Pintou tamb\u00e9m imaginando a selva ali mesmo, nos sub\u00farbios de Paris. Excessivas e irreais, as selvas tropicais de Rousseau, habitadas por animais mais ou menos ferozes, foram assim o resultado de uma imagina\u00e7\u00e3o setentrional e oitocentista.<\/p>\n<p>Por qualquer raz\u00e3o que n\u00e3o sei explicar, antes mesmo do t\u00edtulo desta exposi\u00e7\u00e3o, vieram-me \u00e0 cabe\u00e7a algumas imagens. Todas elas, de um modo ou de outro, estavam tamb\u00e9m ligadas \u00e0 selva ou, pelo menos, a uma certa encena\u00e7\u00e3o ou ideia do que pudesse ser a selva. Lembrei-me ent\u00e3o dos velhos livros de estampas que folheava em mi\u00fado, at\u00e9 antes de saber ler, e que me levavam para outros lugares. Lembrei-me das selvas do W. Burroughs, ca\u00f3ticas e virais, onde viviam esp\u00e9cies perdidas e criaturas h\u00edbridas. Lembrei-me dos mundos esquecidos onde habitavam seres estranhos e nos quais se adivinhava ainda a desmesura dos corpos e a indistin\u00e7\u00e3o entre o reino animal e o vegetal. Lembrei-me sobretudo da infinita capacidade de transforma\u00e7\u00e3o que as coisas do mundo revelam a todo o momento, ultrapassando o simples jogo das apar\u00eancias para nos oferecerem outra coisa, mais profunda e insond\u00e1vel. S\u00f3 ent\u00e3o surgiu a <em>camale\u00f3nica<\/em> e, depois, os desenhos que abrem este cat\u00e1logo.<\/p>\n<p>Camale\u00f3nica \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do camale\u00e3o ou daquilo que se comporta como tal. O camale\u00e3o \u00e9 um r\u00e9ptil de olhos salientes e longa l\u00edngua. Muitas esp\u00e9cies de camale\u00f5es t\u00eam a capacidade de mudar de cor, reagindo a amea\u00e7as externas atrav\u00e9s das suas pr\u00f3prias altera\u00e7\u00f5es de humor, do medo \u00e0 irrita\u00e7\u00e3o, tornando-os mestres da camuflagem e da invisibilidade.&nbsp; A condi\u00e7\u00e3o camale\u00f3nica \u00e9, pois, a da mudan\u00e7a, da transforma\u00e7\u00e3o, quase como se o mundo se viesse alojar na pr\u00f3pria pele, quase como se o mundo habitasse o nosso corpo. Nesse processo de transforma\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma exterioridade que se define a partir de dentro e que \u00e9 acima de tudo uma experi\u00eancia da multiplicidade. Um que \u00e9 muitos, muitos que s\u00e3o apenas um. Mas n\u00e3o nos enganemos. N\u00e3o se trata de replicar ou de projectar o mundo em n\u00f3s ou no corpo mas antes de nos tornarmos mundo, numa esp\u00e9cie de muta\u00e7\u00e3o impercept\u00edvel que \u00e9 tamb\u00e9m um devir-outro, uma experi\u00eancia de alteridade.<\/p>\n<p>Sem uma hipersensibilidade \u00e0s coisas do mundo essa experi\u00eancia da alteridade n\u00e3o parece poss\u00edvel. Quando falo de hipersensibilidade, refiro-me precisamente \u00e0 capacidade medi\u00fanica que permite que as coisas nos atravessem, que permite que sejamos um lugar de tr\u00e2nsito. No limite, essa hipersensibilidade pode ser descrita como uma experi\u00eancia telep\u00e1tica, um tremor que nos atravessa o corpo e nos faz compreender aquilo que nos toca. Veja-se essa qualidade especial dos corpos que tudo sentem mas que, por vezes, n\u00e3o podem ser tocados, justamente porque sentem demasiado.&nbsp; Tais corpos, na sua hipersensibilidade, desejam o mundo mas ao mesmo tempo receiam-no. S\u00e3o t\u00e3o sens\u00edveis que s\u00f3 sentem o mundo tornando-se mundo e, em alguns momentos, essa experi\u00eancia \u00e9 t\u00e3o intensa que se torna insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ora, para ser verdadeiramente consumado, esse movimento contradit\u00f3rio, que aproxima tanto quanto repele aquilo que nos \u00e9 estranho, exige de n\u00f3s um intenso processo de transforma\u00e7\u00e3o camale\u00f3nica que implica uma resist\u00eancia a toda a cristaliza\u00e7\u00e3o, seja da identidade, das rela\u00e7\u00f5es, dos lugares ou das mem\u00f3rias. S\u00f3 assim nos aproximaremos do(s) outro(s) e do que nos \u00e9 estranho.<\/p>\n<p>Esse movimento tem talvez um nome: devir-impercept\u00edvel.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em>E o que pode ser esse desejo de imperceptibilidade, esse movimento em direc\u00e7\u00e3o ao mundo?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, devemos recordar que por natureza o pr\u00f3prio movimento \u00e9 impercept\u00edvel, isto \u00e9, todo o movimento implica uma certa indefini\u00e7\u00e3o perceptiva. O movimento \u00e9 aquilo que s\u00f3 percebemos na rela\u00e7\u00e3o entre dois tempos, o antes e o depois. H\u00e1 movimento quando percebemos essa desloca\u00e7\u00e3o. No entanto, o movimento foi aquilo que justamente n\u00e3o percebemos. Sabemos que houve um tr\u00e2nsito mas n\u00e3o temos como explic\u00e1-lo, n\u00e3o temos como suspender o movimento no momento em que este se faz. Por isso, o movimento \u00e9 m\u00e1gico e encantat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Deleuze e Guattari falam-nos da rela\u00e7\u00e3o entre o impercept\u00edvel, o indiscern\u00edvel e o impessoal; dizem-nos que essas s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que implicam a transpar\u00eancia. Eu diria que s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que se ligam \u00e0 invisibilidade e a uma fun\u00e7\u00e3o deceptiva: n\u00e3o ser aquilo que se espera mas sim aquilo que se deseja.<\/p>\n<p>Devir-impercept\u00edvel ser\u00e1 assim a consuma\u00e7\u00e3o de um desejo de transforma\u00e7\u00e3o, de se confundir com o mundo, de se tornar mundo, todo o mundo. Dito de outro modo, esse desejo de imperceptibilidade \u00e9 um desejo de intensidade perceptiva. De tanto se querer sentir o mundo tornamo-nos mundo e fazemos mundo. Esse \u00e9 um desejo que n\u00e3o implica reproduzir o mundo mas sim faz\u00ea-lo, numa f\u00f3rmula c\u00f3smica que se pode aproximar da feiti\u00e7aria.<\/p>\n<p>As imagens que me assaltaram o esp\u00edrito antes mesmo de surgir esta exposi\u00e7\u00e3o, as imagens da selva, t\u00eam esse car\u00e1cter m\u00e1gico e feiticeiro que se pode associar \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o camale\u00f3nica. Se h\u00e1 ent\u00e3o alguma coisa que possa definir semelhante transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente a mesma intensidade perceptiva e m\u00e1gica que encontramos no desejo de imperceptibilidade, e esse \u00e9, como vimos, um desejo de intensidade na rela\u00e7\u00e3o com as coisas do mundo.<\/p>\n<p>Sejam bem-vindos \u00e0 selva camale\u00f3nica.<\/p>\n<p><strong>Miguel Leal<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&lt;iframe width=&#8221;620px&#8221; height=&#8221;600px&#8221; src=&#8221;<a class=\"Xx\" dir=\"ltr\" tabindex=\"-1\" href=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.yumpu.com\/pt\/embed\/view\/zAtMibeDByGsfLT5&amp;sa=D&amp;source=hangouts&amp;ust=1542817777528000&amp;usg=AFQjCNHuKscDtAPCKyKZ3mTr7cQTycvZLg\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noreferrer noopener\" data-display=\"https:\/\/www.yumpu.com\/pt\/embed\/view\/zAtMibeDByGsfLT5\" data-sanitized=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.yumpu.com\/pt\/embed\/view\/zAtMibeDByGsfLT5&amp;sa=D&amp;source=hangouts&amp;ust=1542817777528000&amp;usg=AFQjCNHuKscDtAPCKyKZ3mTr7cQTycvZLg\">https:\/\/www.yumpu.com\/pt\/embed\/view\/zAtMibeDByGsfLT5<\/a>&#8221; frameborder=&#8221;0&#8243; allowfullscreen=&#8221;true&#8221; &nbsp;allowtransparency=&#8221;true&#8221;&gt;&lt;\/iframe&gt;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Selva camale\u00f3nica Henri Rousseau, conhecido pelas suas pinturas de selvas e outras paisagens ex\u00f3ticas, nunca saiu de Fran\u00e7a em toda a sua vida. 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