{"id":2041,"date":"2017-05-25T10:53:36","date_gmt":"2017-05-25T10:53:36","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=2041"},"modified":"2020-03-11T11:22:27","modified_gmt":"2020-03-11T11:22:27","slug":"lonjuras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/lonjuras\/","title":{"rendered":"<b>Lonjuras<\/b><br>Isaura Pena"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Lonjuras-Cartaz.png\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2043\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Lonjuras-Cartaz.png\" alt=\"Lonjuras [Cartaz]\" width=\"1121\" height=\"1586\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Lonjuras-Cartaz.png 1121w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Lonjuras-Cartaz-212x300.png 212w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Lonjuras-Cartaz-724x1024.png 724w\" sizes=\"(max-width: 1121px) 100vw, 1121px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Uma geografia do inanimado<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>We make history in both temporal directions, past and present. <\/em><br \/>\n<em>What we do, or not do, creates the present. <\/em><br \/>\n<em>What we know, or do not know constructs the past.<\/em><\/p>\n<p>Susan Buck-Morss<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A obra de Isaura Pena desvela-se com o aux\u00edlio (mas tamb\u00e9m relapso) da uniformiza\u00e7\u00e3o e conformismo dos suportes. A fun\u00e7\u00e3o est\u00e9tica (esse entre-espa\u00e7o infinitesimal entre o belo e o feio, a harmonia e o desassossego, o prot\u00f3tipo e o estere\u00f3tipo) \u00e9 desarticulada na sua rela\u00e7\u00e3o monopolista com o singular (o \u00fanico, o raro, o irrepet\u00edvel, o irrevers\u00edvel: as condi\u00e7\u00f5es \u00fanicas que fazem o vulgar tornar-se precioso e o precioso banal), mas tamb\u00e9m com o m\u00faltiplo (com as in\u00fameras vezes com que Isaura ensaia copiosamente o mesmo gesto, a mesma pincelada, a mesma sobreposi\u00e7\u00e3o), e essa desarticula\u00e7\u00e3o serve para que a forma n\u00e3o seja apenas a ativa\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria (a promessa de uma depura\u00e7\u00e3o da arte, de uma \u00absabedoria\u00bb da arte), mas aquilo que ela n\u00e3o consegue compreender em si mesma (isto \u00e9, que a arte frequente e seja a sua pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o). A rela\u00e7\u00e3o que Agamben estabelece entre a subjetividade contempor\u00e2nea e o tempo, em simult\u00e2neo adesiva e descolante, \u00abuma dissocia\u00e7\u00e3o e um anacronismo\u00bb, encontro-a no prolongamento espacial do desenho de Isaura (e do desenho dos outros de que se apropria poeticamente), mas tamb\u00e9m nas suas opera\u00e7\u00f5es instalativas, onde estruturas utilit\u00e1rias (mesas, soalhos, cadeiras, caixas de cart\u00e3o prensado) s\u00e3o exiladas do seu destino e vivem a tens\u00e3o e a fadiga do incompreens\u00edvel, do herm\u00e9tico, ao mesmo tempo que sobrevivem ao t\u00e9dio da sua inutilidade.<\/p>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es pl\u00e1stico-performativas (em que o desenho, pela sua dimens\u00e3o, pelas suas marca\u00e7\u00f5es e sequ\u00eancias tonais, participa na apropria\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o tect\u00f3nico e do claro-escuro do CAPC Sede) enunciam outro tipo de vitalidade para o espa\u00e7o do suporte em papel (ele n\u00e3o \u00e9 um recipiente ou uma parcela, n\u00e3o \u00e9 inclus\u00e3o; n\u00e3o h\u00e1 dial\u00e9tica entre figura e fundo \u2014 se acidentalmente isso acontecer, deve ser ignorado, pois os desenhos de Isaura n\u00e3o procuram ser uma cole\u00e7\u00e3o de efeitos). O suporte (centenas de folhas A3 ou enormes folhas de papel) cava na sua acumula\u00e7\u00e3o, na sua densidade, um espa\u00e7o outro, fict\u00edcio mas tamb\u00e9m intersticial e quotidiano, onde a numera\u00e7\u00e3o, o ritmo, a sequ\u00eancia, a multiplica\u00e7\u00e3o repousam sob a forma de mancha, de gesto, de marca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos aspetos contradit\u00f3rios (e inventivos) desta pr\u00e1tica \u00e9 que a lucidez criativa de Isaura Pena, a dura\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica e sensorial dessa lucidez, \u00e9 um h\u00f3spede imprevisto da cultura material fabricada pela padroniza\u00e7\u00e3o da necessidade (de fazer, de resolver, de utilizar) e do desejo (de se ser al\u00e9m da finitude, da caducidade do Eu-sempre-eu). Isaura trabalha com formatos, desmonta-os, cola-os, associa-os, estabelece interrup\u00e7\u00f5es nas suas l\u00f3gicas internas e na cristaliza\u00e7\u00e3o gr\u00e1fico-expressiva dos seus conte\u00fados.<\/p>\n<p>\u00c9 uma subjetividade dif\u00edcil, a sua, porque lac\u00f3nica (n\u00e3o observamos nem a ret\u00f3rica nem os desvios teatrais de uma per\u00edcia narc\u00edsica) e mais pr\u00f3xima do impasse da trag\u00e9dia (o problema n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o) do que da agonia (artificial) do drama (entregue a um final feliz \u2014 entregue \u00e0 deriva ornamental, ao perigo da irrelev\u00e2ncia da obra\/opera\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A obra que Isaura desenvolve no espa\u00e7o constru\u00eddo, calibra-se ent\u00e3o entre a meta-imagem (o regresso ontol\u00f3gico \u00e0 gram\u00e1tica \u2014 aos signos abstratos \u2014 da representa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para o exerc\u00edcio diferido da aus\u00eancia, do fantasm\u00e1tico, mas para falar da sua forma negativa) e a hiperimagem (a imagem pol\u00edtico-coloquial quase man\u00edaco-depressiva do <em>less is more<\/em>, da serializa\u00e7\u00e3o, da sucess\u00e3o e da analogia). Ao observar o trabalho de Isaura, em particular as suas acumula\u00e7\u00f5es tonais remissivas, quase pautas de uma m\u00fasica sem int\u00e9rpretes, interrogo-me se o desenho \u00e9 um estado de alma irremediavelmente perdido, o momento de uma mortalidade: o da experi\u00eancia de uma for\u00e7a dividida entre \u00aba posse do mundo\u00bb (a representa\u00e7\u00e3o de que o antropocentrismo e o antropomorfismo s\u00e3o elementos fundadores) e a imers\u00e3o no mundo (em que a nomea\u00e7\u00e3o \u2014 os demasiados nomes das coisas do mundo \u2014 e a desorienta\u00e7\u00e3o \u2014 a aliena\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o n\u00e3o s\u00f3 pelo tempo mas pelas subjetividades que o habitam \u2014 apenas acentuam a desorganiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia). Quando falamos do desenho, falamos de um pensamento das imagens que n\u00e3o consegue chegar at\u00e9 n\u00f3s? Falamos de uma vizinhan\u00e7a inane entre \u00aba m\u00e3o do macaco\u00bb (m\u00e3o domesticada, refinada, mas sempre pulsional e org\u00e2nica, brutal mesmo na suavidade e determina\u00e7\u00e3o do seu prop\u00f3sito) e a reflexividade do olho que nos faz (enquanto consci\u00eancia) tocar, mesmo que glauco, vazio, nado-morto, a pele do mundo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pedro Pousada<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma geografia do inanimado &nbsp; We make history in both temporal directions, past and present. What we do, or not do, creates the present. What we know, or do not know constructs the past. Susan Buck-Morss &nbsp; A obra de Isaura Pena desvela-se com o aux\u00edlio (mas tamb\u00e9m relapso) da uniformiza\u00e7\u00e3o e conformismo dos suportes. 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