{"id":2061,"date":"2017-09-19T14:15:58","date_gmt":"2017-09-19T14:15:58","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=2061"},"modified":"2020-03-11T11:21:04","modified_gmt":"2020-03-11T11:21:04","slug":"pinturas-e-esculturas-pequenas-de-2017-e-ainda-alguns-desenhos-de-2009","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/pinturas-e-esculturas-pequenas-de-2017-e-ainda-alguns-desenhos-de-2009\/","title":{"rendered":"<b>Pinturas e Esculturas Pequenas de 2017 e Ainda Alguns Desenhos de 2009<\/b><br>Patr\u00edcia Garrido"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Patri\u0301cia-Garrido-Cartaz.png\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2064\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Patri\u0301cia-Garrido-Cartaz.png\" alt=\"Patri\u0301cia Garrido [Cartaz]\" width=\"1121\" height=\"1586\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Patri\u0301cia-Garrido-Cartaz.png 1121w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Patri\u0301cia-Garrido-Cartaz-212x300.png 212w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Patri\u0301cia-Garrido-Cartaz-724x1024.png 724w\" sizes=\"(max-width: 1121px) 100vw, 1121px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>A ideia de que o espa\u00e7o nos pode fazer recordar algo que n\u00e3o chega a ser expressamente reconhecido liga-se \u00e0 hip\u00f3tese de que os fantasmas presos aos objetos podem segurar mem\u00f3rias que n\u00e3o se conciliam com o que desses objetos\u2028 e dos seus usos sempre percebemos cognitivamente. Indica-se desse modo uma possibilidade te\u00f3rica precisa: que a mem\u00f3ria guardada pelos espa\u00e7os humanos pode comportar dimens\u00f5es que n\u00e3o acompanham as exig\u00eancias da consci\u00eancia e da articula\u00e7\u00e3o narrativa do tempo humano, por mergulharem mais profundamente no corpo pr\u00e9-pessoal e assim tornarem imposs\u00edvel estabelecer uma clara racionaliza\u00e7\u00e3o do experienciado como passado, presente ou futuro. <\/em><\/p>\n<p><em>Lu\u00eds Umbelino, Mem\u00f3ria do corpo, tenta\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, CAPC, 2015<\/em><\/p>\n<p><strong>A exposi\u00e7\u00e3o <em>Pinturas e esculturas pequenas de 2017 e ainda alguns desenhos de 2009,<\/em> que agora se concretiza, cumpre um desejo de anos de realizar no C\u00edrculo de Artes Pl\u00e1sticas de Coimbra uma exposi\u00e7\u00e3o de Patr\u00edcia Garrido. A circunst\u00e2ncia excecional da mostra ocupar os dois espa\u00e7os expositivos \u2014 o seu edif\u00edcio sede na rua Castro Matoso, n.\u00ba 18 e o espa\u00e7o no parque de Santa Cruz, Jardim da Sereia \u2014 explicita, sem reservas, a relev\u00e2ncia desta exposi\u00e7\u00e3o para o C\u00edrculo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ao longo dos \u00faltimos trinta anos, a artista tem gerido com evidente parcim\u00f3nia a apresenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica do seu trabalho, o que lhe tem permitido ter o controlo total da sua produ\u00e7\u00e3o e ir construindo um corpo \u00edntegro, embora de grande complexidade, multifacetado e plural. Alterna per\u00edodos de intensa produtividade com longas pausas, mergulhos em apneia, de extens\u00e3o imprevis\u00edvel, na sua esfera \u00edntima e inacess\u00edvel. S\u00e3o \u00abmomentos de crise\u00bb, como os designa, de reflex\u00e3o sobre o sentido do que produziu, embora continue sempre a preferir a intui\u00e7\u00e3o \u00e0 erudi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita. Esta recusa consciente de omnipresen\u00e7a nos territ\u00f3rios vis\u00edveis do circo medi\u00e1tico da arte permite-lhe salvaguardar-se da crise temporal na qual estamos todos tomados, \u00abde um tempo atomizado, em que todos os momentos s\u00e3o iguais entre si\u00bb, na ace\u00e7\u00e3o de Byung-Chul Han, sobrepondo a vida contemplativa \u00e0 vida ativa.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> \u2028Cada reapari\u00e7\u00e3o p\u00fablica da artista, cada nova exposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma recorporiza\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria obra, um renascimento, uma m\u00e1scara f\u00fanebre que reapresenta um corpo j\u00e1 distante e omnipresente, que \u00e9 sempre a rela\u00e7\u00e3o da artista com a sua obra \u2014 no sentido que Hans Belting define na sua antropologia das imagens \u2014 e \u00e9 j\u00e1, por isso, uma \u00abcorporiza\u00e7\u00e3o impura\u00bb que reclama o direito \u00e0 sua autonomia e tamb\u00e9m a corporiza\u00e7\u00e3o de uma Ideia <em>(idea) <\/em>nova.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> \u2028O seu trabalho n\u00e3o \u00e9 de resist\u00eancia, de g\u00e9nero, feminista, panflet\u00e1rio ou de den\u00fancia, embora tenha uma subtil, poderosa e ir\u00f3nica dimens\u00e3o pol\u00edtica. Em obras como <em>Jogos de Cama<\/em>, de 1994, e especialmente a s\u00e9rie <em>O prazer \u00e9 todo meu<\/em>, do mesmo ano, armadilha o protocolo social do cumprimento reverencial e submisso, reclamando para si a totalidade do \u00abPrazer\u00bb. Demonstra uma plena consci\u00eancia de um mundo dominado pelo paradigma <em>masculino, caucasiano, heterossexual e poderoso pol\u00edtica e financeiramente<\/em>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A ironia, melhor, a desmontagem dos protocolos e dos consensos \u2014 \u00abdo que \u00e9 dado\u00bb \u2014 \u00e9 a ferramenta que usa recorrentemente. Quer sejam protocolos de representa\u00e7\u00e3o, de medida, de linguagem, de poder, de sexualidade, em suma, de significa\u00e7\u00e3o.\u2028A mem\u00f3ria oculta e distante dos espa\u00e7os e dos objetos e a \u00abexperi\u00eancia pr\u00e9-pessoal\u00bb determinam a experi\u00eancia reificada da obra. S\u00e3o assemblagens \u2014 condensa\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o e, principalmente, condensa\u00e7\u00f5es do tempo. A arquitetura, na sua dimens\u00e3o espacial, temporal e de representa\u00e7\u00e3o, volatiza-se em escultura, sublinhando a performatividade do espa\u00e7o ou da casa como espa\u00e7o dramat\u00fargico, <em>alter ego <\/em>do seu habitante.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Para esta exposi\u00e7\u00e3o em que agora se apresenta, Patr\u00edcia Garrido decidiu um inesperado regresso \u00e0 pintura \u2014 a sua disciplina de forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica, cedo preterida pela fotografia, v\u00eddeo, escultura e instala\u00e7\u00e3o \u2014 realizando uma s\u00e9rie de pinturas a \u00f3leo de pequena e m\u00e9dia dimens\u00e3o: s\u00e3o estranhas paisagens, espessas e crepusculares, \u00abfora do tempo\u00bb<em>, <\/em>como as assinala, que convocam e celebram o rigor oficinal da disciplina num alinhamento hist\u00f3rico sem reservas ou pudor.\u2028A pintura, sabemo-lo bem, \u00e9 uma pr\u00e1tica disciplinar de continuidade ao longo da sua hist\u00f3ria, desde a Idade M\u00e9dia e, principalmente, desde o Renascimento. Nenhuma outra disciplina art\u00edstica resistiu aos apelos de outras pr\u00e1ticas derivativas que as afastam de um poss\u00edvel momento matricial. A exposi\u00e7\u00e3o integra tamb\u00e9m um conjunto de 14 esculturas de madeira e bronze, que corporizam os objetos de geometria irregular representados nas pinturas, e 35 desenhos in\u00e9ditos de 2009.\u2028A circunst\u00e2ncia de este regresso, em plena maturidade disciplinar da artista, ser materializado fazendo uso da pintura a \u00f3leo \u2014 t\u00e9cnica nunca antes utilizada por si \u2014 e escultura de bronze evidencia um novo renascimento, uma recorporiza\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria obra, como antes referimos, e um \u00abmodo de fazer cl\u00e1ssico, de voltar ao zero, ao princ\u00edpio de tudo\u00bb, como refere com precis\u00e3o Helena de Freitas no ensaio escrito expressamente para esta exposi\u00e7\u00e3o, e publicado no respetivo cat\u00e1logo.\u2028Essas pinturas e, principalmente, essas esculturas s\u00e3o formas imperfeitas, seladas, esquifes de um corpo que nunca se revelar\u00e1 e que nunca entenderemos pelos caminhos da palavra. Representam uma qualquer estranheza, \u00abcoisas que ainda n\u00e3o sabem o que s\u00e3o (ou se v\u00e3o ser), pluralidades de sentido em pot\u00eancia, analogias, figura\u00e7\u00f5es, divaga\u00e7\u00f5es\u00bb, como observa Pedro Pousada no outro ensaio que integra essa mesma publica\u00e7\u00e3o.\u2028Conclu\u00edmos manifestando o nosso profundo agradecimento a Patr\u00edcia Garrido por se disponibilizar a produzir de raiz uma exposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o vasta para o C\u00edrculo de Artes Pl\u00e1sticas de Coimbra. As 47 pinturas expostas resultam de uma sele\u00e7\u00e3o criteriosa da artista a partir de uma base de cerca de 100 obras produzidas para esta exposi\u00e7\u00e3o. Foi um trabalho obstinado, totalmente concentrado, que pudemos ir acompanhando ao longo do \u00faltimo ano. \u00c9 este o privil\u00e9gio de quem priva com os artistas: poder ver em ateli\u00ea a progress\u00e3o do seu trabalho, as suas d\u00favidas permanentes, as suas convic\u00e7\u00f5es inabal\u00e1veis, que podem durar uma vida, um ano, um dia ou um segundo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Antunes, Corvo, agosto de 2017<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Byung-Chul Han (2016), <em>O aroma do tempo \u2013 um ensaio sobre a arte da demora<\/em>. Lisboa: Rel\u00f3gio D\u00b4\u00c1gua.\u2028<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Hans Belting (2014), <em>Antropologia da imagem<\/em>. Lisboa: Imago.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ideia de que o espa\u00e7o nos pode fazer recordar algo que n\u00e3o chega a ser expressamente reconhecido liga-se \u00e0 hip\u00f3tese de que os fantasmas presos aos objetos podem segurar mem\u00f3rias que n\u00e3o se conciliam com o que desses objetos\u2028 e dos seus usos sempre percebemos cognitivamente. 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