{"id":2078,"date":"2018-03-13T19:20:48","date_gmt":"2018-03-13T19:20:48","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=2078"},"modified":"2020-03-11T11:20:32","modified_gmt":"2020-03-11T11:20:32","slug":"miss-understanding","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/miss-understanding\/","title":{"rendered":"<b>Miss understanding<\/b><br>Ana Rita Ant\u00f3nio"},"content":{"rendered":"<p><em>A crian\u00e7a olhava para o velho que dan\u00e7ava e parecia dan\u00e7ar para toda a eternidade.<\/em><br \/>\n<em> \u2014 Av\u00f4, porque dan\u00e7as desse modo?<\/em><br \/>\n<em> \u2014 Sabes, meu pequeno, o homem \u00e9 como um pi\u00e3o. A sua dignidade, a sua nobreza, o seu equil\u00edbrio, ele n\u00e3o os alcan\u00e7a sen\u00e3o no movimento&#8230; O homem faz-se de se desfazer, n\u00e3o o esque\u00e7as nunca!<\/em><br \/>\nMarc-Alain Ouaknin<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pouco a pouco, o dia equilibra-se, repete-se, articula-se, desmembra-se, at\u00e9 um dia ser um. Afei\u00e7oamo-nos ao pouco, ao oco do regulamento que se perpetua sem atrito, quase sem atrito, quase sem marcas que evidenciem a sua imperfeita uniformidade. Cadente ou ascendente, o ritmo nasce do deslocamento que faz com que o inaparente incida a sua linha obl\u00edqua no comum. A percep\u00e7\u00e3o hesita na dificuldade de se acomodar ao que lhe \u00e9 dado. Os dados que tendem a cair sempre sobre o mesmo lado mant\u00eam-se indecisos sobre o v\u00e9rtice. Habituamo-nos a p\u00f4r uma pedra no sapato, a desequilibrar a monotonia esterilizada do enquadramento. Mancos, n\u00e3o como Jacob depois da luta com o anjo, mas na aus\u00eancia de um anjo que nos fa\u00e7a frente. Do ritmo imposto ao posto arr\u00edtmico de quem coxeia, a lamela que abre o molde fere a pe\u00e7a, mas dessa ferida eclodem harm\u00f3nicos que se multiplicam. Os dedos duplicam-se quando abanamos a m\u00e3o a uma certa velocidade, demasiado r\u00e1pido desaparecem, demasiado lentamente voltam a ser cinco, n\u00e3o se tratando de uma ilus\u00e3o de \u00f3ptica, mas da fragilidade de um espa\u00e7o onde a efervesc\u00eancia da apari\u00e7\u00e3o deixa de ter rela\u00e7\u00e3o com um original para ser a matriz de um jogo que descobrir\u00e1 as suas pr\u00f3prias regras. A inoc\u00eancia do jogo \u00e9 mais s\u00e9ria do que a maturidade do m\u00e9todo; ela vive da possibilidade de fazer surgir a partir da m\u00ednima varia\u00e7\u00e3o o m\u00e1ximo de liberdade. N\u00e3o h\u00e1 jogo sem regras, seria o inesperado que desapareceria juntamente com o que se espera. Mas se o que se espera confina numa monotonia, por seu lado, o jogo que se descobre \u00e0 medida que se joga \u00e9 um constante rejuvenescer. Matisse dizia que o \u00fanico jogo capaz de estar \u00e0 altura da vida seria aquele em que cada movimento de uma pe\u00e7a alteraria todas as regras do mesmo. H\u00e1 um trope\u00e7ar salutar, por vezes uma casualidade, um erro, que d\u00e1 a ver algo que permanecia fechado na sua univocidade. <em>Miss understanding<\/em> n\u00e3o \u00e9 um mero trocadilho, nem uma gra\u00e7ola que se extingue depois de uns segundos: a verdadeira reverbera\u00e7\u00e3o do nome surge face ao trabalho da mesma. <em>Miss understanding<\/em> \u00e9 a singular estereofonia de todas as suas significa\u00e7\u00f5es a ecoarem simultaneamente, a delicadeza de uma compreens\u00e3o que prefere n\u00e3o se deixar levar pelo que subentende, e o desvio de uma incompreens\u00e3o que lhe permite descobrir outra ordem na arrumada desordem dos dias. Este ouvir em simult\u00e2neo dois ou mais sentidos diferentes \u00e9 o que Barthes chama de anfibologia e dele nasce a frui\u00e7\u00e3o do entendimento. Trata-se de <em>jouissance<\/em>, algo que excede a compreens\u00e3o, de modo que a terna viol\u00eancia do jogo se vai revelando no que se suspende sobre a incompreens\u00e3o. Trope\u00e7ar no erro, encontrar o erro, descobrir o erro, \u00e9 entrar na err\u00e2ncia da aventura: a muta\u00e7\u00e3o oferecida pela possibilidade de outra compreens\u00e3o, o prazer da leitura, seja de um trabalho, de um livro ou do mundo, est\u00e1 neste desabrochar de sentidos inesperados.<\/p>\n<p><strong>Ricardo Norte<\/strong><br \/>\nO autor n\u00e3o segue a grafia do recente Acordo Ortogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/MissUnderstanding_MAR18.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2090\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/MissUnderstanding_MAR18.jpg\" alt=\"MissUnderstanding_MAR18\" width=\"1123\" height=\"1588\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/MissUnderstanding_MAR18.jpg 1123w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/MissUnderstanding_MAR18-212x300.jpg 212w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/MissUnderstanding_MAR18-724x1024.jpg 724w\" sizes=\"(max-width: 1123px) 100vw, 1123px\" \/><\/a>Ana Rita Ant\u00f3nio (Leiria, 1980) \u00e9 uma artista visual multidisciplinar que vive e trabalha entre Portugal e a Noruega. Com forma\u00e7\u00e3o em artes visuais pela ESAD das Caldas da Rainha, a Bergen National Academy of Arts e a Academia Rietveld, exp\u00f5e h\u00e1 mais de 10 anos \u2014 individual e coletivamente \u2014 e tem desenvolvido a sua pesquisa art\u00edstica apoiada por diversas bolsas de institui\u00e7\u00f5es portuguesas e norueguesas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Entrevista<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9LTK2_j5xxQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cat\u00e1logo<\/strong><\/p>\n<style>.embed-container { position: relative; padding-bottom:56.25%; height:0; overflow: hidden; max-width: 100%; } .embed-container iframe, .embed-container object, .embed-container embed { position: absolute; top: 0; left: 0; width: 100%; height: 100%;}<\/style>\n<div id=\"ypembedcontainer\" class=\"embed-container\" data-page-width=\"480\" data-page-height=\"640\"><iframe src=\"https:\/\/www.yumpu.com\/pt\/embed\/view\/mt6kLcHysw5zPJCd\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p><script src=\"https:\/\/players.yumpu.com\/modules\/embed\/yp_r_iframe.js\"><\/script><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Inaugura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_2115\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Miss-understanding-1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2115\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2115 size-large\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Miss-understanding-1-1024x680.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"680\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Miss-understanding-1-1024x680.jpg 1024w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Miss-understanding-1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2115\" class=\"wp-caption-text\">\u00abVelum mundissimae\u00bb performance de Vanda Madureira,&nbsp; na inaugura\u00e7\u00e3o de \u00abMiss Understanding\u00bb<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crian\u00e7a olhava para o velho que dan\u00e7ava e parecia dan\u00e7ar para toda a eternidade. \u2014 Av\u00f4, porque dan\u00e7as desse modo? \u2014 Sabes, meu pequeno, o homem \u00e9 como um pi\u00e3o. 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