{"id":4085,"date":"2022-09-19T14:55:53","date_gmt":"2022-09-19T14:55:53","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=4085"},"modified":"2022-12-21T12:57:05","modified_gmt":"2022-12-21T12:57:05","slug":"o-ruido-dos-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/o-ruido-dos-sonhos\/","title":{"rendered":"O ru\u00eddo dos sonhos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"755\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/2022_10_Miguel-Angelo-Rocha-Sereia-redes-sociais-3-3-755x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4118\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/2022_10_Miguel-Angelo-Rocha-Sereia-redes-sociais-3-3-755x1024.png 755w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/2022_10_Miguel-Angelo-Rocha-Sereia-redes-sociais-3-3-221x300.png 221w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/2022_10_Miguel-Angelo-Rocha-Sereia-redes-sociais-3-3-768x1041.png 768w\" sizes=\"(max-width: 755px) 100vw, 755px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c0s vezes certas tardes uma cara<\/em><br><em>Olha-nos do mais fundo dum espelho;<\/em><br><em>A arte deve ser como esse espelho<\/em> <br><em>Que nos revela a nossa pr\u00f3pria cara.<\/em> <br><\/p>\n\n\n\n<p>Jorge\nLu\u00eds Borges, \u00abArte Po\u00e9tica\u00bb, em <em>Poemas Escolhidos<\/em>, Dom Quixote (1985)<\/p>\n\n\n\n<p>Perante um recipiente com \u00e1gua e uma vara imersa, Ptolomeu ou Descartes e outros s\u00e1bios do olho s\u00e3o assaltados pela estranheza que a\u00ed se d\u00e1 ao sens\u00edvel. Im\u00f3veis num-fora-dela, pensam-na, cristalizada num artificialismo discursivo. Por\u00e9m, n\u00e3o se lan\u00e7am num qualquer interior. N\u00e3o habitam. Na d\u00favida, n\u00e3o s\u00e3o-com-ela-no-mundo <a href=\"#_edn1\">[1]<\/a>, envoltos num estremecimento e assombro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em quest\u00e3o, est\u00e1 o\nmist\u00e9rio da vis\u00e3o, a imponder\u00e1vel dial\u00e9tica do vis\u00edvel. Curiosidade sem d\u00favida,\nmodo de ver despertado pela exposi\u00e7\u00e3o <em>O ru\u00eddo dos sonhos<\/em>, dando ao\nsens\u00edvel, tal como o d\u00e1 a dissemelhan\u00e7a de coisas no mundo, a diversidade de obras\nde Miguel \u00c2ngelo Rocha, Isabel Madureira Andrade e Russell Floersch. <\/p>\n\n\n\n<p>Diz S\u00f3crates: o olho arrasta o corpo na fuga da caverna, a masmorra da vis\u00e3o onde as sombras e os ecos s\u00e3o carcereiros, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz que d\u00e1 a ver Formas imateriais e imut\u00e1veis. <a href=\"#_edn2\">[2]<\/a> Entretanto, omite a vis\u00e3o que acontece no movimento do corpo. <em>O ru\u00eddo dos sonhos<\/em> \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de Formas, por\u00e9m alheias \u00e0 metaf\u00edsica, sem idealismo ou intangibilidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Perante estas Formas, a vis\u00e3o acontece sem tautologia, nas espessuras de uma teia de rela\u00e7\u00f5es entre obra, espa\u00e7o, corpo, que abre uma dobra, rasga a presen\u00e7a retiniana, e desprende a lat\u00eancia do invis\u00edvel. Quando o esp\u00edrito deposita no imagin\u00e1rio um excesso que n\u00e3o est\u00e1, por\u00e9m emana da obra, agora extens\u00e3o do corpo, suplemento encarnado, carne sua. <a href=\"#_edn3\">[3]<\/a> Ser-com estas Formas, habitar segundo um princ\u00edpio de negatividade, \u00e9 a dial\u00e9tica de desmontar o sens\u00edvel, o pensamento, o eu que v\u00ea, e se v\u00ea, de erguer o sobredeterminado, recria\u00e7\u00e3o incessante. <a href=\"#_edn4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Miguel \u00c2ngelo Rocha \u00e9 um\nexperimentador da experi\u00eancia, de fazer fazendo, explorando a\ninterdisciplinaridade de materiais e t\u00e9cnicas e instigando a experi\u00eancia do sempre\nimpreciso, do encontrar procurando, dos ritmos diversos nos movimentos do olho\ne do corpo, do esvaziar e do resolver do consciente. <\/p>\n\n\n\n<p>Isabel Madureira Andrade\ntrabalha o desenho e a pintura com recurso a uma matriz que encontra ou produz,\nsubjac\u00eancia com que sonda o aflorar da imagem num gesto indexante pr\u00f3ximo da <em>frottage<\/em>,\nconfrontando a possibilidade do controlo e a imprevisibilidade pl\u00e1stica dos\nmateriais. <\/p>\n\n\n\n<p>Russell Floersch explora\na tens\u00e3o entre mem\u00f3ria e esquecimento, numa pr\u00e1tica experimental de constru\u00e7\u00e3o\ne pintura de modelos escult\u00f3ricos referentes a um lugar e um estender do seu\ntempo, e insinua narrativas, gera o arbitr\u00e1rio na oculta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da tinta, da\nvisualidade de uma aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Pinturas,\nesculturas, constru\u00e7\u00f5es, objetos. Pot\u00eancia e din\u00e2mica, olho e m\u00e3o. Espasmos em expans\u00e3o\ne contra\u00e7\u00e3o, intui\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o. Prop\u00f5em-se sem ilus\u00e3o ou representa\u00e7\u00e3o, sem\nautonomia ou especificidade. S\u00e3o o cair no rasg\u00e3o aberto, rendi\u00e7\u00e3o ao incidente.\nDel\u00edrio sem fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o que acontece; \u00e9, antes, algo acontece. Um espanto. Abalo, choque, perturba\u00e7\u00e3o. Um indetermin\u00e1vel. Indiz\u00edvel, inexpress\u00e1vel, inapresent\u00e1vel. Eleva\u00e7\u00e3o ao limiar em que colidem e convivem a ang\u00fastia, priva\u00e7\u00e3o de qualquer ret\u00f3rica e po\u00e9tica referentes ao que acontece, e a vol\u00fapia, al\u00edvio de algum porvir incerto e amb\u00edguo, fulgor das possibilidades de significa\u00e7\u00e3o, reconhec\u00edvel s\u00f3 no acontecimento. <a href=\"#_edn5\">[5]<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p>O algo acontece \u00e9 performance, <em>happening<\/em>. Fen\u00f3meno do corpo em a\u00e7\u00e3o, perturba\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica sem ensaio nem gui\u00e3o; o irrepet\u00edvel <a href=\"#_edn6\">[6]<\/a> \u2014 fatal paradoxo do <em>in-atual<\/em>. Contingente e prec\u00e1rio, um <em>agora<\/em> enquanto \u00eaxtase temporal. \u00c9 <em>dis-cronia<\/em>, anacronismo do contempor\u00e2neo extempor\u00e2neo, descompasso do <em>j\u00e1-ainda n\u00e3o.<\/em><a href=\"#_edn7\">[7]<\/a> \u00c9 constela\u00e7\u00e3o de <em>agoras<\/em> em reconfigura\u00e7\u00e3o permanente. Tempo t\u00e3o \u00abdemasiado origin\u00e1rio\u00bb qu\u00e3o \u00abdemasiado novo\u00bb, o inatual trava um combate com o devir linear do tempo.<a href=\"#_edn8\">[8]<\/a> O heterocr\u00f3nico constr\u00f3i um contra-espa\u00e7o, espelho opaco. Um fora-do-espa\u00e7o, existente e localiz\u00e1vel no exterior, por\u00e9m que o neutraliza e recria, uma heterotopia de espectros vis\u00edveis.<a href=\"#_edn9\">[9]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ser-com em algum, em\nqualquer, tempo e lugar; uma certa defici\u00eancia na ader\u00eancia do olho \u00e0 luz\nexterior \u2014 uma cosmog\u00e9nese, elenco de alteridades, de simultaneidades e\npromiscuidades. Limiar do <em>entre<\/em>, <em>O ru\u00eddo dos sonhos<\/em> \u00e9 a fina\nmembrana onde acontece a cis\u00e3o do sens\u00edvel e do ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Ricardo Escardu\u00e7a<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref1\">[1]<\/a> Express\u00e3o adaptada do termo enunciado por Martin Heidegger, <em>Ser e Tempo<\/em> (trad. M\u00e1rcia Schuback), Editora Vozes (2015).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref2\">[2]<\/a> Plat\u00e3o,<em> The Republic<\/em>, VII, 515b 3\u201313, 517b 2\u20133, 518c 5\u20138 (trad. Tom Griffith), The Press Syndicate of the University of Cambridge (2003).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref3\">[3]<\/a> Maurice Merleau-Ponty, <em>O olho e o esp\u00edrito<\/em> (trad. Lu\u00eds Manuel Bernardo), Nova Vega (2018).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref4\">[4]<\/a> Georges Didi-Huberman, <em>Diante do tempo, hist\u00f3ria da arte e anacronismo das imagens<\/em> (trad. Lu\u00eds Lima), Orfeu Negro (2017).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref5\">[5]<\/a> Jean-Fran\u00e7ois Lyotard, \u00abThe sublime and the avant-guarde\u00bb, em <em>Documents of contemporary art<\/em>, Whitechapel Gallery e The MIT Press (2010).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref6\">[6]<\/a> Allan Kaprow, <em>How to make a happening<\/em> (1966), vinil 12 polegadas, \u00a9 2022 Estate of Allan Kaprow. Consultado em: www.primaryinformation.org\/files\/allan-kaprow-how-to-make-a-happening.pdf<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref7\">[7]<\/a> Giorgio Agamben, \u00abWhat is the contemporary?\u00bb, em <em>What is an apparatus?, and other essays<\/em> (trads. David Kishik e Stefan Pedatella), Stanford University Press (2009).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref8\">[8]<\/a> Georges Didi-Huberman, <em>Diante do tempo, hist\u00f3ria da arte e anacronismo das imagens<\/em> (trad. Lu\u00eds Lima), Orfeu Negro (2017).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ednref9\">[9]<\/a> Michel Foucault, \u00abOf other spaces: utopias and heterotopias\u00bb, em <em>The Visual Culture Reader<\/em>, Routledge, Taylor and Francis Group (1998).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Miguel \u00c2ngelo Rocha<\/strong> (Lisboa, 1964) \u00e9 um experimentador da experi\u00eancia, que explora a interdisciplinaridade de materiais e t\u00e9cnicas no tempo do processo no ateli\u00ea e instiga o tempo da experi\u00eancia no espa\u00e7o expositivo, dando-os ao sempre indeterminado do acaso, aos ritmos diversos nos movimentos do olhar e do corpo, ao esvaziar e ao resolver do consciente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Isabel\nMadureira Andrade<\/strong>\n(Ponta Delgada, 1991) trabalha o desenho e a pintura com origem numa grelha matricial\nque encontra ou produz, um senso de uterino e subjac\u00eancia, sondando e ensaiando\na emerg\u00eancia da imagem no tempo do gesto indexante da <em>frottage<\/em>, no qual a\npossibilidade de controlo colide com a imprevisibilidade pl\u00e1stica dos materiais.\n<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Russell\nFloersch<\/strong> (Nova\nIorque, 1960) explora a tens\u00e3o entre mem\u00f3ria e esquecimento, numa pr\u00e1tica\nexperimental de constru\u00e7\u00e3o e pintura de modelos escult\u00f3ricos em pequena escala referentes\na um lugar e um estender do seu tempo, e que se constitui como narrativa pl\u00e1stica,\nna qual a tinta gera o incidente, ou destino, da oculta\u00e7\u00e3o, a visualidade de uma\npresen\u00e7a ausente. <br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><br><br><strong>C\u00edrculo Sede<br><\/strong>Rua Castro Matoso, 18, Coimbra<\/p>\n\n\n\n<p><strong>C\u00edrculo Sereia<br><\/strong>Casa Municipal da Cultura, Piso -1<br>Parque de Santa Cruz, Jardim da Sereia, Coimbra<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><br>  <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Programa educativo<\/h3>\n\n\n\n<p><br><br><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AxXnPIXDaM4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen title=\"Programa Educativo CAPC. 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