{"id":4381,"date":"2023-01-20T14:10:20","date_gmt":"2023-01-20T14:10:20","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=4381"},"modified":"2023-04-29T13:08:36","modified_gmt":"2023-04-29T13:08:36","slug":"vim-para-enterrar-cesar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/vim-para-enterrar-cesar\/","title":{"rendered":"Vim para enterrar C\u00e9sar"},"content":{"rendered":"\n<ul class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/2023_01_Gustavo-Sumpta-Sede-e-Sereia-Formato-redes-1024x1024.png\" alt=\"\" data-id=\"4382\" data-link=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?attachment_id=4382\" class=\"wp-image-4382\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/2023_01_Gustavo-Sumpta-Sede-e-Sereia-Formato-redes-1024x1024.png 1024w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/2023_01_Gustavo-Sumpta-Sede-e-Sereia-Formato-redes-150x150.png 150w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/2023_01_Gustavo-Sumpta-Sede-e-Sereia-Formato-redes-300x300.png 300w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/2023_01_Gustavo-Sumpta-Sede-e-Sereia-Formato-redes-768x768.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><\/ul>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><br>Folha de Sala<\/h4>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<ol><li>A exposi\u00e7\u00e3o de Gustavo Sumpta <em>Vim para Enterrar C\u00e9sar<\/em> \u00e9 composta por dois n\u00facleos de obras, distribu\u00eddas pelos dois espa\u00e7os do CAPC, interligados, mas a que correspondem duas tipologias de preocupa\u00e7\u00f5es: no espa\u00e7o da Sereia, encontra-se um conjunto de obras que convocam a morte e a sua representa\u00e7\u00e3o, a guerra e disciplina, a fragilidade do corpo e a sua perfura\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria e a sua reapropria\u00e7\u00e3o. No espa\u00e7o do CAPC Sede, na Rua Castro Matoso, a obra apresentada reflete sobre a mem\u00f3ria, a sua representa\u00e7\u00e3o e o apagamento, e, de certa forma, o movimento. A unir ambos os momentos h\u00e1 um foco na preocupa\u00e7\u00e3o com o rigor e a precis\u00e3o, caracter\u00edsticas essenciais do trabalho de Gustavo Sumpta, quer nas obras escult\u00f3ricas, quer no trabalho performativo, que tamb\u00e9m aqui \u00e9 evocado.<\/li><li>Na Sereia, encontram-se duas obras que reconhecemos como baionetas: um conjunto de sete \u00abbaionetas\u00bb alinhadas e cravadas na parede, logo na primeira sala, intitulada <em>Os Sete Magn\u00edficos<\/em>. O t\u00edtulo \u00e9 apropriado do filme hom\u00f3nimo de John Sturges, de 1960, <em>western<\/em> com Yul Brynner, James Coburn, Charles Bronson e Steve McQueen, um \u00e9pico sobre coragem e resist\u00eancia, uma ode a uma hipermasculinidade no limiar do caricato. Mas pode tamb\u00e9m remeter para a can\u00e7\u00e3o hom\u00f3nima dos The Clash, ir\u00f3nica no fresco da Inglaterra de Margaret Thatcher, um hino <em>working class hero<\/em>, sobre a luta di\u00e1ria.<\/li><li>As \u00abbaionetas\u00bb s\u00e3o esculturas de bronze \u2014 s\u00e3o, portanto, representa\u00e7\u00f5es \u2014 estetizadas no processo da sua reprodu\u00e7\u00e3o numa liga nobre, ligada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da escultura desde a Antiguidade. As baionetas de bronze foram moldadas a partir de uma baioneta de ferro, presente na \u00faltima sala da Sereia, uma r\u00e9plica (com prop\u00f3sitos reais e efetivamente b\u00e9licos) realizada a partir de um modelo ingl\u00eas usado nas guerras peninsulares. Come\u00e7amos, portanto, com esculturas de modelo que convocam a tradi\u00e7\u00e3o neocl\u00e1ssica do molde a partir do real. Neste caso, no entanto, a sucess\u00e3o de media\u00e7\u00f5es \u00e9 mais ampla, porque se inicia com uma pe\u00e7a \u00abreal\u00bb \u2014 no sentido em que \u00e9 uma arma efetiva \u2014, mas que \u00e9, ela mesma, uma c\u00f3pia de um original previamente existente, tamb\u00e9m ele uma r\u00e9plica. Num certo sentido, as esculturas s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es de representa\u00e7\u00f5es, num circuito que inaugura a exposi\u00e7\u00e3o como reflex\u00e3o acerca dos processos representacionais, ou, por outras palavras, acerca do processo inevit\u00e1vel da arte de substitui\u00e7\u00e3o de uma entidade (chamemos-lhe \u00abcorpo\u00bb), por um outro que o substitui e lhe transporta o sentido. O nome grego para este transporte de sentido \u00e9 \u00abmet\u00e1fora\u00bb.<\/li><li>Na sala seguinte, coexistem duas esculturas: um suporte de p\u00e9, com fun\u00e7\u00e3o militar, moldado a partir de uma pe\u00e7a semelhante existente no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, na mesma sala na qual Sumpta exp\u00f4s na Bienal Anozero de 2017. Esse suporte, colocado em frente a uma janela \u2014 parecia convocar a posi\u00e7\u00e3o de um corpo expectante \u2014 indica um ponto de observa\u00e7\u00e3o e uma postura corporal. Essa postura pertence ao dom\u00ednio da estatu\u00e1ria militar: algu\u00e9m que observa, ou conquista, um p\u00e9 colocado sobre outro corpo, seja uma alterca\u00e7\u00e3o do terreno, ou um outro corpo humano; em qualquer dos casos, \u00e9 sempre uma postura de domina\u00e7\u00e3o e, portanto, convert\u00edvel em monumento. A outra obra \u00e9 um anzol comp\u00f3sito, suspenso do teto como um n\u00f3 de forca, \u00e0 altura do corpo sacrificado. Ningu\u00e9m est\u00e1 suspenso da sua condena\u00e7\u00e3o, nenhum corpo cumpre a fun\u00e7\u00e3o da escultura que convoca a captura, nem t\u00e3o pouco nenhum corpo usar\u00e1 o suporte para o p\u00e9. Restam os seus fantasmas, a mem\u00f3ria h\u00e1ptica dos corpos que a\u00ed teriam sido conquistadores ou conquistados, dominadores ou dominados.<\/li><li>Guiados pelos fantasmas, entramos na \u00faltima sala, onde duas obras se complementam. Nenhuma delas \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o (melhor, neste contexto, ambas o s\u00e3o), porque s\u00e3o <em>readymades<\/em>: a mesa \u00e9 uma verdadeira mesa de aut\u00f3psia do s\u00e9culo XIX e a baioneta \u00e9 a tal baioneta oitocentista na vers\u00e3o brit\u00e2nica, antes usada pelo ex\u00e9rcito de Wellington, for\u00e7a \u00ablibertadora\u00bb da invas\u00e3o francesa, posteriormente copiada para uso local.<\/li><li>Finalmente, a mesa de aut\u00f3psia oitocentista. Nada h\u00e1 a dizer, sen\u00e3o convocar os fantasmas de todos os que, sem nome nem mem\u00f3ria, aqui foram analiticamente esventrados e estudados. Os fantasmas est\u00e3o vividamente presentes na morfologia da mesa anat\u00f3mica, o escorrimento dos fluidos pensados e domesticados, os cheiros agora extintos, s\u00f3 deles restando uma mem\u00f3ria visual projetiva por todos aqueles que, solene e tristemente, compreenderem a fun\u00e7\u00e3o de desmantelamento do corpo.<\/li><li>Tudo aqui, portanto, convoca a fragilidade do corpo manipulado, perfurado e esventrado, sem que, no entanto, qualquer presen\u00e7a corporal, sen\u00e3o os artefactos (verdadeiros e falsos, escult\u00f3ricos ou roubados ao real), a\u00ed esteja para a convocar. As pe\u00e7as s\u00e3o como que moldes fantasm\u00e1ticos para corpos ausentes, proficientemente presentificados pelos espectadores, eles pr\u00f3prios substitutos, met\u00e1foras de v\u00edtimas.<\/li><li>Na sede, s\u00f3 uma sala \u00e9 ocupada, e com uma \u00fanica obra. Trata-se de uma pe\u00e7a que sobrevive \u2014 melhor, refaz \u2014, uma performance que Sumpta realizou num projeto da Bienal Boca intitulada <em>Quero ver as minhas montanhas<\/em>. O projeto tomava a obra hom\u00f3nima de Joseph Beuys como refer\u00eancia e pretendia referir a natureza como mem\u00f3ria. Nessa performance duracional, Sumpta lan\u00e7ou, de uma janela do Centro Cultural de Bel\u00e9m virada para a Pra\u00e7a do Imp\u00e9rio, fitas de K7 VHS que ia amarrando a um arco \u00e0 sua volta. Nessas K7, mem\u00f3rias obsoletas de um outro tempo, flutuavam fragmentos imposs\u00edveis agora de recuperar. A escultura realizada presentifica esse momento, o de uma obsolesc\u00eancia que assombra o presente, imposs\u00edvel de viver ou de recuperar. S\u00f3 um vento as poder\u00e1 agitar, s\u00f3 uma melancolia as pode fazer viver.<\/li><li>Que importa. O corpo fr\u00e1gil da mem\u00f3ria da grande gl\u00f3ria s\u00f3 existe na expectativa. E o nome dessa expetativa \u00e9 desconhecido, dele apenas restando o eco de uma substitui\u00e7\u00e3o, de uma met\u00e1fora que, na eros\u00e3o da sua repeti\u00e7\u00e3o rec\u00f4ndita, s\u00f3 pode devolver-nos o halo da morte e, no melhor dos casos, da sobreviv\u00eancia.<\/li><li>E aqui estamos para enterrar C\u00e9sar. E esperar, ironicamente, por Marco Ant\u00f3nio.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p><br>\u2014 Delfim Sardo<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"845\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/fotos-gustavo-sumpta-33-1024x845.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4414\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/fotos-gustavo-sumpta-33-1024x845.jpg 1024w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/fotos-gustavo-sumpta-33-300x248.jpg 300w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/fotos-gustavo-sumpta-33-768x634.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"680\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/fotos-gustavo-sumpta-22-1024x680.jpg\" alt=\"\" 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De entre as suas exposi\u00e7\u00f5es individuais, constam:&nbsp;<em>Sob o Signo do Pneu<\/em>, na Galeria Solar, Vila do Conde (2022);&nbsp;<em>Luto<\/em>, na Galeria da Casa A. Molder, Lisboa (2021); e&nbsp;<em>Die Zunge an den Gaumen n\u00e4hen\/Coser a l\u00edngua ao c\u00e9u-da-boca<\/em>&nbsp;(2017), no Rosalux \u2013 The Berlin based art space, Berlim. Participou em v\u00e1rias exposi\u00e7\u00f5es coletivas com:&nbsp;<em>Pontas Duplas<\/em>&nbsp;(2021), na Galeria Presen\u00e7a, Porto;&nbsp;<em>Metal Sonante<\/em>&nbsp;(2017), no Anozero \u2013 Bienal de Coimbra; e&nbsp;<em>Um homem quando mata um homem \u00e9 um assassino, quando mata mil \u00e9 um acto de F\u00e9&nbsp;<\/em>(2009), na Bienal Gyumri, Museu Etnogr\u00e1fico de Gyumri, Arm\u00e9nia. Das suas diversas performances, destacam-se:&nbsp;<em>Herdeiro Universal<\/em>&nbsp;(2022), DAMAS, Lisboa;&nbsp;<em>D.O.C. \u2013 Denomina\u00e7\u00e3o de Origem Controlada<\/em>&nbsp;(2021),no Festival Boca, Centro Cultural de Bel\u00e9m, Lisboa;&nbsp;<em>Sempre-em-P\u00e9<\/em>&nbsp;(2020), Festival Temps d\u2019Images, Centro Cultural das Carpintarias de S\u00e3o L\u00e1zaro, Lisboa; e&nbsp;<em>Levantar o Mundo<\/em>&nbsp;(2017), no Anozero \u2013 Bienal de Coimbra.<br><br><\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><br><strong>C\u00edrculo Sede<br><\/strong>Rua Castro Matoso, 18, Coimbra<\/p>\n\n\n\n<p><strong>C\u00edrculo Sereia<br><\/strong>Casa Municipal da Cultura, Piso -1<br>Parque de Santa Cruz, Jardim da Sereia, Coimbra<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Folha de Sala A exposi\u00e7\u00e3o de Gustavo Sumpta Vim para Enterrar C\u00e9sar \u00e9 composta por dois n\u00facleos de obras, distribu\u00eddas pelos dois espa\u00e7os do CAPC, interligados, mas a que correspondem duas tipologias de preocupa\u00e7\u00f5es: no espa\u00e7o da Sereia, encontra-se um conjunto de obras que convocam a morte e a sua representa\u00e7\u00e3o, a guerra e disciplina, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4392,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4381"}],"collection":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4381"}],"version-history":[{"count":12,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4381\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4429,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4381\/revisions\/4429"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4392"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4381"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4381"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4381"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}