{"id":596,"date":"2014-01-24T15:29:15","date_gmt":"2014-01-24T15:29:15","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=596"},"modified":"2020-03-10T14:36:12","modified_gmt":"2020-03-10T14:36:12","slug":"antonio-olaio-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/antonio-olaio-2\/","title":{"rendered":"<b>Ciclo Espelho<\/b><br>Ant\u00f3nio Olaio"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>As C\u00e1tedras de S. Pedro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Estas telas foram pela primeira e ultima vezes apresentadas na&nbsp;exposi\u00e7\u00e3o \u201cNa C\u00e1tedra de S. Pedro\u201d em 2010, no Museu Gr\u00e3o&nbsp;Vasco, em Viseu, desdobrando a ideia de cadeira, conceptual e&nbsp;visualmente, tendo como ponto de partida uma das obras mais&nbsp;importantes de Gr\u00e3o Vasco. E evoca\u00e7\u00e3o do contexto acad\u00e9mico,&nbsp;numa personagem envergando um traje talar que, estando de p\u00e9&nbsp;sobre uma cadeira, a sua cabe\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o cabe na tela. Uma cadeira&nbsp;como disciplina acad\u00e9mica, lugar de partilha de saber, nas&nbsp;potencialidades pl\u00e1sticas do pensamento, mas, sobretudo, como&nbsp;materializa\u00e7\u00e3o de um lugar, de um lugar tornado objecto, mas um&nbsp;lugar humanizado.<\/p>\n<p>Nos anos 60, Bruce Nauman fez o molde do espa\u00e7o sob a sua&nbsp;cadeira, materializando-o em cimento. Agora, aqui, talvez se&nbsp;trate sobretudo do espa\u00e7o que cada cadeira gera na vertical, na&nbsp;ideia de um espa\u00e7o sem antecipa\u00e7\u00e3o de limite, mas um espa\u00e7o&nbsp;topograficamente delimitado, perten\u00e7a de cada um, na assun\u00e7\u00e3o&nbsp;de que cada um de n\u00f3s ter\u00e1 a sua pr\u00f3pria cadeira, como uma&nbsp;esp\u00e9cie de lote unipessoal, sem tecto.<\/p>\n<p>No contexto deste Ciclo Espelho estas telas v\u00eaem&nbsp;sublinhado, desde logo, o seu sentido especular. Cadeiras que se&nbsp;reflectem nas sombras. Sombras que se autonomizam,&nbsp;reclamando protagonismo. Na plasticidade das formas que as&nbsp;sombras assumem, estas reclamam ser a causa das cadeiras e n\u00e3o&nbsp;a consequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Especula\u00e7\u00e3o no sentido dos conceitos que se desdobram&nbsp;quando nos interrogamos sobre eles. Se dobram sobre si pr\u00f3prios,&nbsp;tomam consci\u00eancia de si, mas transformam-se ao confirmar-se.&nbsp;Nestas c\u00e1tedras de S. Pedro, a especula\u00e7\u00e3o faz-nos pensar nas&nbsp;formas e seus arqu\u00e9tipos. O arqu\u00e9tipo cadeira insinua-se aqui&nbsp;como assombra\u00e7\u00e3o, nas possibilidades que a pintura permite, na&nbsp;rela\u00e7\u00e3o entre os objectos e as suas sombras.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f3nio Olaio,&nbsp;Janeiro de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<div id=\"attachment_598\" style=\"width: 1558px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/c\u00edrculo-C\u00e1tedras.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-598\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-598 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/c\u00edrculo-C\u00e1tedras.jpg\" alt=\"c\u00edrculo C\u00e1tedras\" width=\"1548\" height=\"1548\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/c\u00edrculo-C\u00e1tedras.jpg 1548w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/c\u00edrculo-C\u00e1tedras-150x150.jpg 150w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/c\u00edrculo-C\u00e1tedras-300x300.jpg 300w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/c\u00edrculo-C\u00e1tedras-1024x1024.jpg 1024w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/c\u00edrculo-C\u00e1tedras-500x500.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1548px) 100vw, 1548px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-598\" class=\"wp-caption-text\">C\u00edrculo definido pelo artista Ant\u00f3nio Olaio como imagem da exposi\u00e7\u00e3o As C\u00e1tedras de S.Pedro, no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><b>Ciclo Espelho<\/b><\/em><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Santa Clara a velha, \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o de um corpus arquitect\u00f3nico por diferentes condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, diferentes actualidades: ref\u00fagio, casa e teatro de um mundo, est\u00e1bulo, ru\u00edna, imagem, paisagem, monumento, tesouro arqueol\u00f3gico e finalmente laborat\u00f3rio e espa\u00e7o museol\u00f3gico onde se mediatiza. Santa Clara \u00e9 de facto um espa\u00e7o definido pela pluralidade e descontinuidade dos seus fins.<\/p>\n<p>O Mosteiro de Santa Clara ganhou o seu baptismo geri\u00e1trico (a velha) por incapacidade avan\u00e7ada; a fun\u00e7\u00e3o desprendeu-se da forma arquitect\u00f3nica no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XVII.&nbsp;E a liturgia deu lugar \u00e0 pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Originalmente destinada \u00e0s&nbsp;<i>Pen\u00e9lopes&nbsp;<\/i>beir\u00e3s, \u00e0s propriet\u00e1rias fundi\u00e1rias (a parte feminina do cume da ordem social vigente) que recusavam um dono e que queriam decidir a economia dos seus bens, Santa Clara, a casa coimbr\u00e3 das Damas Pobres, construiu-se como uma barreira arquitect\u00f3nica contra a penetra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, contra a brutalidade testament\u00e1ria do pecado original.<\/p>\n<p>No uso deste edif\u00edcio como no de tantos outros espa\u00e7os conventuais, no regulamento do seu quotidiano intramuros, a consci\u00eancia h\u00e1ptica do humano, a agonia dos limites e das necessidades (a comida, os perfumes, os cheiros, os sons, as febres, o desconforto do corpo em mudan\u00e7a, a menstrua\u00e7\u00e3o, a fertilidade, a textura da experi\u00eancia, os brevi\u00e1rios, os excessos e as proibi\u00e7\u00f5es carnais, as missas, a probidade, o ego\u00edsmo, o deve e o haver dos segredos pessoais e colectivos, a contabilidade das in\u00fameras rendas e doa\u00e7\u00f5es, as obras, os olhares trocados, o \u00f3cio) e a ren\u00fancia dessa mesma condi\u00e7\u00e3o humana, a busca de um dever ser mais que natural, a busca do sagrado (o transcendente, a incompletude do presente, o bem que faz o mal e o mal que faz o bem, o sacrif\u00edcio, a paix\u00e3o, a luta contra a repeti\u00e7\u00e3o) foram mutuamente inclusivos.<\/p>\n<p>Nas margens de um rio que os romanos chamavam&nbsp;<i>Munda<\/i>, claridade, ergueu-se nos finais do s\u00e9c. XIII um ref\u00fagio contra o animalesco, a natureza, o inimigo; a clausura constituiu-se como um prolongamento de vida, como uma moeda de troca exigida pela protec\u00e7\u00e3o contra a intrus\u00e3o androc\u00eantrica, contra o matrim\u00f3nio coercivo. A vi\u00fava de um soberano dedicou-lhe uma nova Igreja e um hospital. Mas esse rio, filho de uma cordilheira glaciar, existia nos interst\u00edcios do terreno, nas cavidades subterr\u00e2neas e disputando a solidez do terreno fez o mosteiro das Clarissas coimbr\u00e3s adquirir um horizonte lagunar. O claustro, as naves do templo, foram imergindo nas cheias do Mondego e o pequeno reino das Damas Pobres foi recalcitrando em diferentes pisos at\u00e9 ao seu abandono. O ref\u00fagio, a est\u00e9tica do lugar vivido, a policromia dos azulejos, a cantaria aprofundada por m\u00e3os inteligentes, as colunas, as ab\u00f3bodas de ber\u00e7o, cederam o lugar \u00e0 ru\u00edna, ao esquecimento, ao espa\u00e7o alienado pelo tempo. O ref\u00fagio tornou-se a pictura de uma inutilidade, a representa\u00e7\u00e3o de algo que j\u00e1 n\u00e3o podia ser, o emblema da decad\u00eancia de todas as obras humanas mesmo das bem-intencionadas. A ru\u00edna improdutiva, insalubre, reum\u00e1tica tornou-se no s\u00e9c. XX um tesouro de um certo tipo de vida humana, o vest\u00edgio f\u00edsico de uma organiza\u00e7\u00e3o pr\u00e9-burguesa e pr\u00e9-industrial do espa\u00e7o comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na fase final do s\u00e9c. XX, praticamente trezentos anos depois do seu abandono, o mosteiro adquire um novo estado cin\u00e9tico, uma nova exterioridade e uma nova subjectividade que o recoloca no mundo como objecto vivo: o Centro de Interpreta\u00e7\u00e3o do Mosteiro de Santa Clara a Velha.<\/p>\n<p>No desenho deste novo edif\u00edcio inscrevem-se muitos elementos da investiga\u00e7\u00e3o modernista: a evolu\u00e7\u00e3o criadora do essencialismo geom\u00e9trico que n\u00e3o mimetiza, que n\u00e3o ilustra mas que ao mesmo tempo consegue estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o narrativa com o lugar, a clareza funcional das partes, a fenomenologia do corpo que sai entrando, que toma consci\u00eancia da reversibilidade entre o interior constru\u00eddo e o exterior contemplado, vivido. Uma nave longitudinal segmentada, com vastas fenestra\u00e7\u00f5es que acentuam a fluidez e n\u00e3o o s\u00f3lido, o vis\u00edvel e n\u00e3o o escondido como propaga\u00e7\u00e3o do real no espa\u00e7o arquitect\u00f3nico. Dois corpos (ruina+ monumento), (casa+ museu) enfrentam-se e completam-se (ou desfixam-se). O tempo \u00e9 reconhec\u00edvel por aquilo que define as diferen\u00e7as entre estes dois pontos e no fluxo produzido pelo movimento entre essas categorias arquitect\u00f3nicas o espa\u00e7o supera a sua condi\u00e7\u00e3o de ve\u00edculo, de objecto e \u201cmistura-se com o mundo\u201d.<\/p>\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica para a exposi\u00e7\u00e3o que agora o CAPC organiza neste espa\u00e7o sob o t\u00edtulo de \u201cEspelho\u201d foi a condi\u00e7\u00e3o inusitada de Santa Clara ter durante tr\u00eas s\u00e9culos convivido com o seu sim\u00e9trico reflectido nas margens do Mondego.<\/p>\n<p>O estranhamento perceptivo com que se encarava a presen\u00e7a desta realidade ainda perdura na mem\u00f3ria deste espa\u00e7o. Essa rela\u00e7\u00e3o entre o objecto e a representa\u00e7\u00e3o invertida da sua exterioridade, a arquitectura \u201cvendo e sendo vista a existir\u201d, revitalizou contraditoriamente a mat\u00e9ria constru\u00edda como uma anamnese liquida, expectante, como o espa\u00e7o de uma vida anterior, terminada cujo duplo \u201cafogado\u201d, como \u201cum sal\u00e3o no fundo de um lago\u201d, era tamb\u00e9m a marca do incompleto e a invoca\u00e7\u00e3o de um regresso.<\/p>\n<p>A forma arquitect\u00f3nica existiu duplamente como congelamento de um metabolismo antropol\u00f3gico\u2014Santa Clara, a ru\u00edna, ganhara um car\u00e1cter indexical, recordando a organiza\u00e7\u00e3o do isolamento comunit\u00e1rio, a hierarquiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o humanizado- e como auto-representa\u00e7\u00e3o na superf\u00edcie lacustre. O CAPC n\u00e3o podia deixar de revisitar o potencial de ambiguidade associado com esta experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Pousada,&nbsp;Janeiro de 2012<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cle1L1GIl7Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As C\u00e1tedras de S. Pedro Estas telas foram pela primeira e ultima vezes apresentadas na&nbsp;exposi\u00e7\u00e3o \u201cNa C\u00e1tedra de S. Pedro\u201d em 2010, no Museu Gr\u00e3o&nbsp;Vasco, em Viseu, desdobrando a ideia de cadeira, conceptual e&nbsp;visualmente, tendo como ponto de partida uma das obras mais&nbsp;importantes de Gr\u00e3o Vasco. 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