{"id":729,"date":"2014-05-17T17:18:33","date_gmt":"2014-05-17T17:18:33","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=729"},"modified":"2020-03-10T15:30:42","modified_gmt":"2020-03-10T15:30:42","slug":"filipe-marques","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/filipe-marques\/","title":{"rendered":"<b>Arte Now, Apocalypse Later<\/b><br>Filipe Marques"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201cA ordem presente \u00e9 a desordem futura\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&nbsp;Saint Just<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Podemos erguer um dispositivo historiogr\u00e1fico sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a pol\u00edtica e a ordem \u201cnatural\u201d da arte e demonstrar que a pol\u00edtica \u00e9 uma das propriedades que se manifestam no corpo das experi\u00eancias que situamos culturalmente como sendo arte. Afirmar que todas as decis\u00f5es e ac\u00e7\u00f5es art\u00edsticas s\u00e3o decis\u00f5es e ac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas situa-se no mesmo plano de dizer que estamos vivos antes de morrermos. Ningu\u00e9m escapa \u00e0 viol\u00eancia da hist\u00f3ria, ao confronto entre o princ\u00edpio de realidade e o princ\u00edpio de prazer, e aquilo que a arte \u00e9 (que consegue ser e que a deixam ser) actua nos limites do poder, exp\u00f5e-se \u00e0 no\u00e7\u00e3o de soberania, aos problemas do livre arb\u00edtrio, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduo e Estado.<\/p>\n<p>Essa condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da arte est\u00e1, ainda mais do que Ant\u00edgona, dividida entre obedecer \u00e0s leis do soberano (o mecenas, o Estado, o sistema art\u00edstico) ou condenar-se. At\u00e9 os insuspeitos paisagistas ingleses estavam a politizar a natureza, introduzindo-lhe valores est\u00e9ticos aos quais o seu fluxo, a sua descontinuidade era indiferente, e a incorporar-lhe a ideia do transcendente, pelo simples facto de virarem as costas \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o industrial em que estavam irremediavelmente imersos, a mesma revolu\u00e7\u00e3o que confiante na sua racionalidade, no seu controle dos fen\u00f3menos naturais, no progresso t\u00e9cnico imaginava um mundo com uma natureza corrigida e aperfei\u00e7oada.<\/p>\n<p>Para acentuarmos a nossa tese e arriscando at\u00e9 o disparate anacr\u00f3nico, podemos aproximar o grupo de indiv\u00edduos que h\u00e1 17000 anos, na gruta de Lascaux, dedicou horas da sua vida prec\u00e1ria de sobreviv\u00eancia, a concretizar imagens capazes de estabilizar uma ideia de mem\u00f3ria e de quotidiano (imagens capazes, tamb\u00e9m, de confrontar essa empiria com a presen\u00e7a muito forte do incompreens\u00edvel na apar\u00eancia das coisas vivas e mortas); podemos, dizia, aproxim\u00e1-los (e \u00e0 comunidade a que pertenciam) das palavras com que Jacques Ranci\u00e8re, a partir de um leitura de Plat\u00e3o, define a condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, segundo ele, \u201ccome\u00e7a quando seres destinados a permanecer dentro do espa\u00e7o invis\u00edvel do trabalho que n\u00e3o deixa tempo para fazer outra coisa tomam em m\u00e3os esse tempo que n\u00e3o t\u00eam para se afirmarem como gente que partilha tamb\u00e9m um mundo comum, para fazer ver aquilo que n\u00e3o se via ou para passarem a ouvir como palavra que discute o interesse comum aquilo que era ouvido somente como ru\u00eddo comum\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_731\" style=\"width: 914px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-2.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-731\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-731 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-2.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"904\" height=\"693\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-2.jpg 904w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-2-300x230.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 904px) 100vw, 904px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-731\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Filipe Marques<\/strong> | <em>how does one make a rat human?<\/em>, 2011-12 | \u00f3leo, inox, porcelana, vidro aramado, ferro s\/madeira | 160 cm x 250 cm<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sair \u201cdo espa\u00e7o invis\u00edvel (Gyorgy Luk\u00e1cs chamar-lhe-ia reificado) do trabalho\u201d, resistir (elevar-se, contrariar\u2026muitos verbos caberiam aqui) perante a finitude do vivido, do corpo e dos seus automatismos, dissociar-se do valor habitual dos signos, das palavras (e, acrescente-se, essa diferen\u00e7a pode passar como aconteceu com as conven\u00e7\u00f5es neocl\u00e1ssicas da Academia pela imobiliza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica), n\u00e3o s\u00e3o estas tarefas da pr\u00e1tica art\u00edstica? N\u00e3o \u00e9 esta a sua pol\u00edtica (inescap\u00e1vel)? Enquadrar mas tamb\u00e9m decompor a desordem maior que \u00e9 o real? Viver na mentira para tentar, sobretudo tentar sem o conseguir, problematizar a pot\u00eancia do bem para fazer o mal e do mal para fazer o bem. Ocupar um outro espa\u00e7o no real que n\u00e3o o definido e caucionado pela mec\u00e2nica (administrativa, organizacional) do comando e da obedi\u00eancia, do trabalho e da recompensa? Um espa\u00e7o praticado como a ant\u00edtese da doxa dominante mas tamb\u00e9m marcado pelas suas logomaquias, pelas suas conting\u00eancias hist\u00f3ricas, pelos seus lugares comuns? Um espa\u00e7o que sonha utopicamente com a autonomia absoluta dos seus meios e objectivos mas que convive com o caos agreste das lutas ideol\u00f3gicas e da multid\u00e3o (cada vez mais) dividida entre camaradas, advers\u00e1rios e inimigos.<\/p>\n<p>Mas a consci\u00eancia do valor pol\u00edtico da pr\u00e1xis art\u00edstica \u00e9 uma aquisi\u00e7\u00e3o relativamente recente para a hist\u00f3ria da arte. A consci\u00eancia desse valor (e efeito) \u00e9 sintom\u00e1tica das mudan\u00e7as transformadoras que a modernidade implicou para as pr\u00e1ticas intersubjetivas e tanto podemos situ\u00e1-la no modo como Goya introduz a morte an\u00f3nima e sem hero\u00edsmo no seu quadro&nbsp;<em>Os Fuzilamentos de 3 de Maio<\/em>&nbsp;(1814) como no tema da aliena\u00e7\u00e3o tratado por Flaubert no seu&nbsp;<em>Bouvard e P\u00e9cuchet<\/em>&nbsp;(1881), tanto na emancipa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao informe, ao n\u00e3o-hist\u00f3rico, que o IV Estado obteve atrav\u00e9s da pintura \u201cdemocr\u00e1tica\u201d de Courbet como nas indecis\u00f5es ideol\u00f3gicas entre&nbsp;<em>auto-cr\u00edtica e revolu\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;que definiram a rela\u00e7\u00e3o de muitas vanguardas com o poder.<\/p>\n<p>O artista coloca-se diante do monop\u00f3lio da viol\u00eancia e, tamb\u00e9m ele se interroga se vai ceder \u00e0 for\u00e7a, se vai fazer parte da ordem, tamb\u00e9m ele \u00e9 comprado, tamb\u00e9m ele se cala. Ou ent\u00e3o tudo se passa ao contr\u00e1rio. \u00c9 complexo, contradit\u00f3rio o modo como ele problematiza a sua condi\u00e7\u00e3o de autor, como negoceia a integridade do seu trabalho, como aceita o outro como interlocutor, e finalmente, como \u201cdesce ao mercado\u201d (ao sistema, que, dir\u00edamos agora, coloniza tudo) para revelar a sua exist\u00eancia e, eventualmente, vender os seus produtos- segundo Stefan Zweig, o poeta H\u00f6lderlin comentara que, tamb\u00e9m, ele descera ao mercado mas que ningu\u00e9m o quisera comprar e esta ser\u00e1 uma caracter\u00edstica do criador moderno, a dificuldade (pol\u00edtica) em se constituir como valor de troca ou de se inserir na divis\u00e3o social do trabalho.<\/p>\n<p>E quais s\u00e3o as macro e micro pol\u00edticas dessas auto-representa\u00e7\u00f5es em que a arte \u00e9 pol\u00edtica porque \u00e9 arte? Podemos resumir o repert\u00f3rio a dois casos gerais, o primeiro ser\u00e1 a no\u00e7\u00e3o hoje desgastada perante o espect\u00e1culo da \u201canti-arte oficial\u201d (mas uma no\u00e7\u00e3o outrora vigorosa), do artista que se apresenta como um desinibido social, como um adulto que recusa em acto os constrangimentos associados ao contrato social, outra, que combina romantismo e alteridade, \u00e9 a (auto) representa\u00e7\u00e3o do artista como um profeta motivacional que recusa a imita\u00e7\u00e3o do mundo e antecipa atrav\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e da cria\u00e7\u00e3o do novo as aspira\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a que enformam a rela\u00e7\u00e3o da utopia com a vida concreta. Hoje estes dois casos revertem nos artistas que procedem \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do universal pela alteridade etnogr\u00e1fica implicando o outro, o estrangeiro, o desenraizado, o n\u00e3o-especialista na inven\u00e7\u00e3o de uma cr\u00edtica do presente que se centra agressivamente nesse presente. Assim desde a experi\u00eancia de&nbsp;<em>agitprop<\/em>&nbsp;das vanguardas russas \u00e0s incurs\u00f5es isoladas de autores-mundo a quebra de confian\u00e7a (e a melancolia perante essa constata\u00e7\u00e3o \u00e9 em alguns casos muito forte) em rela\u00e7\u00e3o ao evidente e ao preconcebido instalou-se duradouramente na rela\u00e7\u00e3o do mundo da supert\u00e9cnica do in\u00fatil que \u00e9 a arte com o mundo dos&nbsp;<em>poloi<\/em>, dos muitos que j\u00e1 n\u00e3o se validam e j\u00e1 n\u00e3o interagem na semelhan\u00e7a mas na diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem estabelecida.<\/p>\n<p>Como notava Clement Greenberg no seu&nbsp;<em>Avantgarde and Kitsch<\/em>&nbsp;(1939), o \u201cmomento da vanguarda\u201d (o modernismo) \u00e9 o do estranhamento da cultura burguesa ocidental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua mem\u00f3ria, \u00e9 o da crise dos seus valores simb\u00f3licos e da capacidade dos artistas (e poetas, escritores) comunicarem (e serem convincentes nessa comunica\u00e7\u00e3o) com as suas audi\u00eancias; a vanguarda seria o cancelamento (n\u00e3o apenas celebrado como no caso futurista, mas problematizado como em Mondrian) dessa liga\u00e7\u00e3o; seria o momento hist\u00f3rico irrevers\u00edvel, dizemos n\u00f3s agora, em que cessa a enuncia\u00e7\u00e3o da arte como forma totalizante, reveladora de verdade (e de uma ordem subjacente a essa verdade) e portanto essencialista (a rela\u00e7\u00e3o da cultura com os seus produtores e detractores n\u00e3o voltaria a ser a mesma).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_732\" style=\"width: 922px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-9.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-732\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-732 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-9.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"912\" height=\"658\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-9.jpg 912w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-9-300x216.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 912px) 100vw, 912px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-732\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Filipe Marques<\/strong> | <em>The Split Subject of Interpellation<\/em>, 2011-12 | \u00f3leo, inox, porcelana, impress\u00e3o s\/acr\u00edlico e ferro s\/madeira | 160 cm x 250 cm<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A verdade sem autor cessa de existir para a arte e esse \u00e9 um facto pol\u00edtico. E mesmo o agonismo prescritivo das vanguardas que derivar\u00e1 para a crescente especializa\u00e7\u00e3o (e perca de clareza) da sua mensagem, n\u00e3o \u00e9 mais do que a exacerba\u00e7\u00e3o dessa separa\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel entre arte e verdade. Ainda estamos a falar de pol\u00edtica sem a enunciar sobretudo se pensarmos, como T.J. Clark o faz, que Greenberg v\u00ea na vanguarda o \u00fanico instrumento capaz de preservar (atrav\u00e9s de uma meta-linguagem e de uma especializa\u00e7\u00e3o) a Cultura do relativismo desolador do kitsch.<\/p>\n<p>Um aspecto a relevar \u00e9 que o uso da quest\u00e3o pol\u00edtica (e insista-se neste ponto, um uso n\u00e3o apenas lido como a constru\u00e7\u00e3o social da sensibilidade do autor mas como um m\u00e9todo de trabalho onde a filosofia e as suas aporias perturbam a rotina e a indulg\u00eancia do fazer, da manufactura, do esperado) confronta-se com os erros e mis\u00e9rias da sua hist\u00f3ria recente e hoje for\u00e7osamente t\u00eam que se aferir os limites temporais do valor de uso da arte de propaganda (mas tamb\u00e9m t\u00eam que se questionar a entropia resultante da&nbsp;<em>arte como discurso da arte<\/em>). \u00c9 verdade que o valor pol\u00edtico da arte tem sido problematizado (e reinventado) por concep\u00e7\u00f5es antag\u00f3nicas que o colocam simetricamente como uma amea\u00e7a \u00e0 ideia de diferen\u00e7a, como lugar de priva\u00e7\u00e3o (um momento inferior, \u201cplebeu\u201d da vida art\u00edstica dos objectos) ou que colocam esse valor numa rela\u00e7\u00e3o directa com a realidade transformada, numa rela\u00e7\u00e3o que se situa, em conflito, na heterogeneidade da experi\u00eancia quotidiana e dos sistemas abstractos do poder.<\/p>\n<p>Talvez a grande aprendizagem desses erros e mis\u00e9rias n\u00e3o esteja tanto no monocromatismo do mundo. O mundo \u00e9 imaculado e sujo, belo e ign\u00f3bil, haver\u00e1 culpa e inoc\u00eancia, ego\u00edsmo e desprendimento; sim, a multid\u00e3o est\u00e1 dividida, existir\u00e3o diferentes escal\u00f5es e import\u00e2ncias de \u201celes\u201c e de \u201dn\u00f3s\u201d, de administrados e de administradores, e a viol\u00eancia \u00e9 um procedimento da hist\u00f3ria mas a tarefa precisa de se orientar menos para o manique\u00edsmo do preto e do branco (porque o \u201cn\u00f3s\u201d pode rapidamente tornar-se no \u201celes\u201d) e para compreender o que faz com que os homens aceitem a realidade ou a rejeitem, o que faz com que os homens se vendam ao diabo ou prefiram imolar-se no fogo do sacrif\u00edcio. O artista n\u00e3o tem que responder (ou sequer problematizar) a quest\u00e3o central que nos persegue na escassez, \u201ca quem pertence o mundo?\u201d. A sua indiferen\u00e7a ou recusa \u00e9 tamb\u00e9m um acto pol\u00edtico leg\u00edtimo. A ideia de pol\u00edtica que aqui se trata ultrapassa qualquer reinven\u00e7\u00e3o da politiza\u00e7\u00e3o do&nbsp;<em>dever ser da arte<\/em>, nem se reporta \u00e0 migra\u00e7\u00e3o do \u201cestar juntos em oposi\u00e7\u00e3o\u201d para o conceito de colectivo plural de raiz voltairiana (a dissid\u00eancia como o eterno presente da ideia de arte).<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel conclus\u00e3o. O valor geral das tend\u00eancias art\u00edsticas tamb\u00e9m pode ser aferido pelo modo como se inserem numa comunidade e como ao mesmo tempo subvertem as regras com que essa mesma comunidade define (para si e para os outros) a forma e o conte\u00fado da sua experi\u00eancia, a sua mem\u00f3ria, os seus c\u00f3digos e os seus limites; n\u00e3o existe, portanto, uma verdade absoluta, determinista, na rela\u00e7\u00e3o dos artistas (e do produto do seu trabalho) com o mundo em que vivem e com os regimes de opress\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e naturaliza\u00e7\u00e3o do institu\u00eddo que definem esse mundo. Existe em contrapartida a possibilidade do conhecimento, do enquadramento, dessas modalidades de controle e destitui\u00e7\u00e3o social ser feito a partir da experi\u00eancia art\u00edstica. Existe a possibilidade de pensar artisticamente o que faz do real aquilo que \u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 dentro da possibilidade da arte ser criada como pol\u00edtica e percebida como po\u00e9tica ou criada como po\u00e9tica e percebida como pol\u00edtica que eu ingresso as obras propostas por Filipe Marques para o CAPC; elas denotam uma forma de&nbsp;<em>pensamento com imagens<\/em>&nbsp;que d\u00e1 enfase ao n\u00e3o visual para contraditoriamente falar do cepticismo e finitude do corpo, do corpo em desordem, que vive em perca, que n\u00e3o consegue sair do \u201cespa\u00e7o sens\u00edvel do trabalho\u201d (ele grita, \u201cpissing, \u201cass\u201d, \u201cshit\u201d mas n\u00e3o age).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_730\" style=\"width: 935px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-3.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-730\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-730 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-3.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"925\" height=\"693\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-3.jpg 925w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/FM-2014-3-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 925px) 100vw, 925px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-730\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Filipe Marques<\/strong> | <em>From Hermeneutics to the Cause<\/em>, 2011-12 | ferro e n\u00e9on | 240 cm x 250 cm x 120 cm<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A montagem das obras est\u00e1 enraizada em termos formais na esfera do poder tardo-modernista, dito de outro modo, problematiza-se a partir da reinven\u00e7\u00e3o da ruptura e da cr\u00edtica da comunidade naturalizada: a p\u00e1tria, a l\u00edngua, a religi\u00e3o, o corpo, o monetarismo expressam-se nos esquifes cruciformes, nas interjei\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas, numa experimenta\u00e7\u00e3o de tentativa e erro para superar o dualismo problem\u00e1tico entre arqu\u00e9tipo (a forma desejada, a geometria do ut\u00f3pico: as caixas met\u00e1licas, vitrines\/showrooms do est\u00e1tico) e o prot\u00f3tipo (o fluxo do vivido, o ser existindo e agindo na forma consumida pelo tempo).<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o metodologias que sobredeterminam a impossibilidade de uma reconcilia\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica (n\u00e3o haver\u00e1 harmonia nem consenso mas luta, s\u00f3 ela garante que o fluxo n\u00e3o \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o mas expectativa, s\u00f3 ela garante que o futuro n\u00e3o exista mas que o presente se separe do passado). Daqui se depreende que a imagem central das obras de Filipe Marques, que a sua combina\u00e7\u00e3o de controle do vazio e de sem\u00e2ntica dos materiais, \u00e9 um trabalho sobre esse objecto que existe em lado nenhum, sobre a contra-visualidade daquilo que nos separa do aparente, do eterno retorno. As palavras comem o espa\u00e7o e s\u00f3 assim \u00e9 que ele se torna radical.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Pousada<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA ordem presente \u00e9 a desordem futura\u201d &nbsp;Saint Just Podemos erguer um dispositivo historiogr\u00e1fico sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a pol\u00edtica e a ordem \u201cnatural\u201d da arte e demonstrar que a pol\u00edtica \u00e9 uma das propriedades que se manifestam no corpo das experi\u00eancias que situamos culturalmente como sendo arte. 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