{"id":753,"date":"2014-05-24T16:25:48","date_gmt":"2014-05-24T16:25:48","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=753"},"modified":"2020-03-10T15:42:00","modified_gmt":"2020-03-10T15:42:00","slug":"miguel-leal-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/miguel-leal-2\/","title":{"rendered":"<b>Ciclo Santa Cruz<\/b><br>Miguel Leal"},"content":{"rendered":"<p>Diz-nos Maria Filomena Molder, que na carta que Walter Benjamin escreveu a Florens Christian Rang, em 1923, h\u00e1 um excerto onde se l\u00ea \u00abque a arte n\u00e3o salva a nossa noite, a arte ilumina a nossa noite como as estrelas, as ideias [\u2026] Iluminar, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 despiciendo, como \u00e9 indispens\u00e1vel.\u00bb*<\/p>\n<p><i>Verkl\u00e4rte Nacht<\/i>, de Miguel Leal (o t\u00edtulo foi busc\u00e1-lo a uma das primeiras pe\u00e7as musicais de Arnold Sch\u00f6nberg, de 1899), \u00e9 um trabalho de 2001 e fez parte da exposi\u00e7\u00e3o \u201cAtlas\u201d, individual do artista na galeria Marta Vidal, Porto. Uma caixa de luz, reutilizando um objecto m\u00e9dico que servira para o seu av\u00f4 radiologista ver as radiografias, \u00e9 convertida em objecto art\u00edstico atrav\u00e9s da impress\u00e3o fotogr\u00e1fica sobre pel\u00edcula leitosa no vidro. A ilumina\u00e7\u00e3o da caixa, por duas l\u00e2mpadas fluorescentes, \u00e9 \u201cindispens\u00e1vel\u201d para observarmos a \u201cradiografia\u201d desta noite \u201ctransfigurada\u201d. Ao meio, e \u00e0 direita, irrompem dois clar\u00f5es abertos na<i> negra e azul escurid\u00e3o<\/i> (ser\u00e3o as luzes dos candeeiros numa <i>estrada perdida<\/i> algures? Filme de mudan\u00e7as e transfigura\u00e7\u00f5es, n\u00e3o evocamos o t\u00edtulo de Lynch em v\u00e3o); \u00e0 esquerda, tr\u00eas casas iluminadas por dentro (onde algu\u00e9m dormir\u00e1: <i>O Licht im schlafenden Haus!<\/i>; onde haver\u00e1 quem esteja acordado, como n\u00f3s). <i>Espa\u00e7os de mem\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o, recantos de intimidade e ref\u00fagio<\/i>, as casas long\u00ednquas e as suas luzes, s\u00e3o, como sugere Gaston Bachelard, em <i>La Po\u00e9tique de l\u2019espace<\/i>, \u201colhos abertos sobre a noite\u201d, como se as estrelas do c\u00e9u viessem habitar a terra.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, como num relato de Vila-Matas, poder\u00edamos ver, sentado numa destas mesas, Walter Benjamin, que por certo teria admirado Sch\u00f6nberg, e, como dizia Georges Steiner, \u201cera um <i>connaisseur<\/i> apaixonado e peregrino de caf\u00e9s\u201d, a escrever um postal, na sua caligrafia <i>quase microsc\u00f3pica<\/i>, a Marcel Duchamp, falando-lhe de uma <i>bo\u00eete<\/i>, outra, que, do <i>rigoroso c\u00e1lculo da luz da radioscopia incerta \/ como n\u00f3s<\/i>, \u201ctransfigurada\u201d, passara <i>a iluminar a nossa noite como as estrelas, as ideias<\/i>, no Caf\u00e9 Santa Cruz, em Coimbra, sob a ab\u00f3bada constelada da segunda sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f3nio M. Costa<\/p>\n<p>*Maria Filomena Molder, O Qu\u00edmico e o Alquimista \u2013 Benjamin, Leitor de Baudelaire, Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, Lisboa, 2011.<\/p>\n<p>** Em it\u00e1lico, cita\u00e7\u00f5es de Ossip Mandelstam, Rainer Maria Rilke, Gaston Bachelard, Enrique Vila-Matas, Carlos de Oliveira, Walter Benjam<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1020\" style=\"width: 770px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/conviteMiguelLeal.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1020\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-1020\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/conviteMiguelLeal.jpg\" alt=\"Miguel Leal | Verkl\u00e4rte Nacht, 2001 | Instala\u00e7\u00e3o no Caf\u00e9 Santa Cruz\" width=\"760\" height=\"555\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/conviteMiguelLeal.jpg 760w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/conviteMiguelLeal-300x219.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 760px) 100vw, 760px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1020\" class=\"wp-caption-text\">Miguel Leal | Verkl\u00e4rte Nacht, 2001 | Instala\u00e7\u00e3o no Caf\u00e9 Santa Cruz<\/p><\/div>\n<p><em><b>Territ\u00f3rio e Ac\u00e7\u00e3o<\/b><\/em><\/p>\n<p>Inscreve-se este novo ciclo no programa de estrat\u00e9gias que se endere\u00e7am \u00e0 sociedade civil, que passam por posicionar algumas das actividades do CAPC em lugares da cidade onde haja uma maior circula\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica; pretende-se especificamente captar a aten\u00e7\u00e3o daqueles que n\u00e3o frequentam habitualmente o CAPC ou sequer conhecem o seu papel na produ\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica contempor\u00e2nea e desse modo socializar a mais-valia art\u00edstica e simb\u00f3lica que se concretiza nos diferentes espa\u00e7os do CAPC (CAPC-Sereia, CAPC-Sede). De espa\u00e7o cultural expectante que aguarda os seus espectadores, os seus visitantes, de espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o do campo art\u00edstico contempor\u00e2neo o CAPC assumiria um contrato social com a cidadania an\u00f3nima de Coimbra, realizaria uma migra\u00e7\u00e3o dos seus conte\u00fados para o c\u00edrculo da Civita Augescens, isto \u00e9 para o interior din\u00e2mico de Coimbra, para a sua capacidade de recep\u00e7\u00e3o e acolhimento dos outros, para a cultura da plurietnicidade e da supranacionalidade que definem o esfor\u00e7o desta urbe em se afastar do decl\u00ednio demogr\u00e1fico e econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>\u00c9 o CAPC a descer \u00e0 cidade, inquirindo e desconcertando os cidad\u00e3os, mobilizando o quotidiano, promovendo a capacidade de recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. O ciclo geral Territ\u00f3rio e ac\u00e7\u00e3o ser\u00e1 constitu\u00eddo por quatro ciclos: Santa Cruz, Espelho, Linha defensiva do Mondego e Link.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><b>Santa Cruz<\/b><\/em><\/p>\n<p>No lugar do altar, na \u201ccabe\u00e7a de Cristo\u201d, organizar-se-\u00e3o uma s\u00e9rie de iniciativas art\u00edsticas explorando critica e reflexivamente os protocolos da representa\u00e7\u00e3o numa sociedade ela pr\u00f3pria profundamente iconocrata e marcada por processos de media\u00e7\u00e3o distrativos, escapistas e de crescente ambiguidade sem\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Num lugar que numa primeira fase possu\u00eda um posicionamento monoss\u00e9mico e prescritivo, onde se ancorava a liturgia do divino, os sons, as texturas, os odores, o impacto visual desses momentos, e que pelos percal\u00e7os, inibi\u00e7\u00f5es e ansiedades da hist\u00f3ria grande se foi acomodando a novas fun\u00e7\u00f5es de que o Caf\u00e9 inclusivo, plural, tertualiano de Santa cruz \u00e9 a mais recente; num lugar com este \u201cexcesso de consci\u00eancia hist\u00f3rica\u201d, o CAPC prop\u00f5e-se ensaiar um di\u00e1logo com a cidade em que vive e f\u00e1-lo atrav\u00e9s do&nbsp;<i>problema art\u00edstico&nbsp;<\/i>(o que \u00e9 a arte? quando h\u00e1 arte?), problema que nos \u00f9ltimos cinquenta anos tem vindo a debater, a tentar clarificar mas tamb\u00e9m a indeterminar ; a aten\u00e7\u00e3o inquiridora, proponente do CAPC perante este problema expressa-se aqui, neste momento inicial, tanto na sua condi\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia, de algo que \u00e9 extr\u00ednseco, que \u00e9 da ordem do sujeito que observa, que convive, como na sua condi\u00e7\u00e3o de forma significante, de obra.<\/p>\n<p>Esta iniciativa do CAPC agrega-se a um tema, os protocolos da representa\u00e7\u00e3o, que persiste e apura-se no objecto art\u00edstico contempor\u00e2neo com outros desenlaces pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Com efeito n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 aud\u00edveis mas actuantes na actualidade da pr\u00e1tica art\u00edstica as permuta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que a revolu\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica modernista estabeleceu entre uma est\u00e9tica da compara\u00e7\u00e3o (,a dramatiza\u00e7\u00e3o narrativa do aparente, a dial\u00e9ctica entre verosimilhan\u00e7a e artif\u00edcio, entre segredo e transpar\u00eancia) e uma est\u00e9tica da compar\u00eancia (do nomeado e do irrepresent\u00e1vel).<\/p>\n<p>Ao destituir o&nbsp;<i>imitatio&nbsp;<\/i>como o \u00fanico principio activo do acto de representa\u00e7\u00e3o (de recoloca\u00e7\u00e3o no mundo) a cultura art\u00edstica do s\u00e9culo XX, independentemente do paradigma ou periodiza\u00e7\u00e3o que se proponha, abriu para o espectador (mesmo para o mais inexperiente) novas possibilidades de negocia\u00e7\u00e3o e de mobiliza\u00e7\u00e3o po\u00e9tica na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo vivido. Essa Arte aproximou mesmo que residualmente o interesse humano do interesse art\u00edstico obrigando o sujeito que observa a convalescer do&nbsp;<em>pathos<\/em>&nbsp;determinista do pitoresco, do \u201cf\u00e1cil\u201d, do \u201cexpect\u00e1vel\u201d, do \u201csemelhante\u201d, obrigando-o para parafrasear Kant, a \u201caudare sapare (ousar saber)\u201d. Se conseguiu ter \u00eaxito ser\u00e1 outra discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Certo \u00e9, contudo e contraditoriamente, que quando nada \u00e9 reconhec\u00edvel, quando n\u00e3o s\u00f3 se prolonga o rastreio perceptivo do espectador como se desfamiliariza, se torna estranho, dif\u00edcil de interpretar aquilo que se d\u00e1 a ver, a Arte, (e as obras que aqui estar\u00e3o expostas disso falar\u00e3o), desenvolve, (aperfei\u00e7oando, criticando, renovando os mecanismo da representa\u00e7\u00e3o), um esfor\u00e7o hist\u00f3rico para enraizar no mesmo plano conceptual o \u201cN\u00f3s\u201d e o \u201cEles\u201d, isto \u00e9, a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre um Eu (eu sou Imago, logo existo) e a diferen\u00e7a do Outro (a persist\u00eancia de outras antropologias da identidade e da percep\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o do mundo); a Arte treina-nos a interrogarmos o mundo fora dos nosso fins, das nossas preconcep\u00e7\u00f5es. E \u00e9 esse esfor\u00e7o que aqui na cabeceira de Santa Cruz tamb\u00e9m se positiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Pousada e Carlos Antunes,&nbsp;Janeiro de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diz-nos Maria Filomena Molder, que na carta que Walter Benjamin escreveu a Florens Christian Rang, em 1923, h\u00e1 um excerto onde se l\u00ea \u00abque a arte n\u00e3o salva a nossa noite, a arte ilumina a nossa noite como as estrelas, as ideias [\u2026] Iluminar, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 despiciendo, como \u00e9 indispens\u00e1vel.\u00bb* Verkl\u00e4rte Nacht, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":754,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[34,13,24,4,6,11,23],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/753"}],"collection":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=753"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/753\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3222,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/753\/revisions\/3222"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/754"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=753"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=753"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=753"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}