{"id":759,"date":"2014-05-24T16:54:11","date_gmt":"2014-05-24T16:54:11","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=759"},"modified":"2020-03-10T15:40:03","modified_gmt":"2020-03-10T15:40:03","slug":"rita-gaspar-vieira-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/rita-gaspar-vieira-2\/","title":{"rendered":"<b>Ciclo Espelho<\/b><br>Rita Gaspar Vieira"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Linha d<\/em><\/strong><strong><em>\u2019\u00c1<\/em><\/strong><strong><em>gua&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A \u00e1gua \u00e9 elemento indissoci\u00e1vel da hist\u00f3ria do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.<\/p>\n<p>Foi o avan\u00e7o das \u00e1guas do Mondego que lenta e progressivamente ditou o seu abandono. Outrora ref\u00fagio, durante quase tr\u00eas s\u00e9culos, ru\u00edna.<\/p>\n<p>Quando, em finais do s\u00e9c. XX, se entendeu recuperar e requalificar este espa\u00e7o, com a cria\u00e7\u00e3o do Centro de Interpreta\u00e7\u00e3o do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, fragmentos da cantaria (decorativa e funcional) do velho edif\u00edcio foram dispostos e expostos sob a nova constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre estes achados arqueol\u00f3gicos est\u00e1 diversa cantaria outrora usada para recolha e aproveitamento das \u00e1guas pluviais, desprovida agora de funcionalidade, mem\u00f3ria de algo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9. Ao simular (replicar) por momentos a sua anterior fun\u00e7\u00e3o, ainda que vertendo sobre eles n\u00e3o \u00e1gua mas pasta de papel, Rita Gaspar Vieira foi tornando vis\u00edvel a sua forma, os seus atributos e as cicatrizes provocadas pelo uso e pelo tempo.<\/p>\n<p>A posterior desloca\u00e7\u00e3o do molde-desenho para coloca\u00e7\u00e3o no interior do espa\u00e7o-museu e a\u00ed, a sua exposi\u00e7\u00e3o com recurso a apetrechos modernos de semelhante cariz utilit\u00e1rio, conferem \u00e0 pe\u00e7a valor acrescido enquanto registo das caracter\u00edsticas do modelo mas tamb\u00e9m, como sempre se espera que aconte\u00e7a nestes fen\u00f3menos de recontextualiza\u00e7\u00e3o museol\u00f3gica, enquanto elemento evocativo de uma s\u00e9rie de materiais e procedimentos esquecidos e alienados mas merecedores de aten\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o renovadas.<\/p>\n<p>Acontece com o molde-desenho no museu como com a pe\u00e7a de cantaria no r\u00e9s-do-ch\u00e3o. A transcri\u00e7\u00e3o em contextos d\u00edspares do original sustenta, fomenta e estimula o potencial cr\u00edtico e reflexivo do objecto apresentado.<\/p>\n<p>Esta estranheza cresce pela utiliza\u00e7\u00e3o do material-papel que replica e magnifica com acrescida exactid\u00e3o e sensibilidade as caracter\u00edsticas do modelo original.<\/p>\n<p>Curioso \u00e9 tamb\u00e9m que os procedimentos e processos utilizados por Rita Gaspar Vieira em <em>Linha d<\/em><em>\u2019\u00c1<\/em><em>gua<\/em> fa\u00e7am jus \u00e0 duplicidade e ao potencial mim\u00e9tico evocados pelo t\u00edtulo deste ciclo de exposi\u00e7\u00f5es: <em>Espelho<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Andreia Po\u00e7as, Maio de 2014<\/p>\n<div id=\"attachment_1017\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/desdobravelRitaVieira-01.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1017\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-1017\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/desdobravelRitaVieira-01.png\" alt=\"Imagem do c\u00edrculo da exposi\u00e7\u00e3o Linha d'\u00c1gua | Rita Gaspar Vieira\" width=\"550\" height=\"637\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/desdobravelRitaVieira-01.png 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/desdobravelRitaVieira-01-259x300.png 259w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1017\" class=\"wp-caption-text\">Imagem do c\u00edrculo da exposi\u00e7\u00e3o Linha d&#8217;\u00c1gua | Rita Gaspar Vieira<\/p><\/div>\n<p><em><b>Ciclo Espelho<\/b><\/em><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Santa Clara a velha, \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o de um corpus arquitect\u00f3nico por diferentes condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, diferentes actualidades: ref\u00fagio, casa e teatro de um mundo, est\u00e1bulo, ru\u00edna, imagem, paisagem, monumento, tesouro arqueol\u00f3gico e finalmente laborat\u00f3rio e espa\u00e7o museol\u00f3gico onde se mediatiza. Santa Clara \u00e9 de facto um espa\u00e7o definido pela pluralidade e descontinuidade dos seus fins.<\/p>\n<p>O Mosteiro de Santa Clara ganhou o seu baptismo geri\u00e1trico (a velha) por incapacidade avan\u00e7ada; a fun\u00e7\u00e3o desprendeu-se da forma arquitect\u00f3nica no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XVII.&nbsp;E a liturgia deu lugar \u00e0 pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Originalmente destinada \u00e0s&nbsp;<i>Pen\u00e9lopes&nbsp;<\/i>beir\u00e3s, \u00e0s propriet\u00e1rias fundi\u00e1rias (a parte feminina do cume da ordem social vigente) que recusavam um dono e que queriam decidir a economia dos seus bens, Santa Clara, a casa coimbr\u00e3 das Damas Pobres, construiu-se como uma barreira arquitect\u00f3nica contra a penetra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, contra a brutalidade testament\u00e1ria do pecado original.<\/p>\n<p>No uso deste edif\u00edcio como no de tantos outros espa\u00e7os conventuais, no regulamento do seu quotidiano intramuros, a consci\u00eancia h\u00e1ptica do humano, a agonia dos limites e das necessidades (a comida, os perfumes, os cheiros, os sons, as febres, o desconforto do corpo em mudan\u00e7a, a menstrua\u00e7\u00e3o, a fertilidade, a textura da experi\u00eancia, os brevi\u00e1rios, os excessos e as proibi\u00e7\u00f5es carnais, as missas, a probidade, o ego\u00edsmo, o deve e o haver dos segredos pessoais e colectivos, a contabilidade das in\u00fameras rendas e doa\u00e7\u00f5es, as obras, os olhares trocados, o \u00f3cio) e a ren\u00fancia dessa mesma condi\u00e7\u00e3o humana, a busca de um dever ser mais que natural, a busca do sagrado (o transcendente, a incompletude do presente, o bem que faz o mal e o mal que faz o bem, o sacrif\u00edcio, a paix\u00e3o, a luta contra a repeti\u00e7\u00e3o) foram mutuamente inclusivos.<\/p>\n<p>Nas margens de um rio que os romanos chamavam&nbsp;<i>Munda<\/i>, claridade, ergueu-se nos finais do s\u00e9c. XIII um ref\u00fagio contra o animalesco, a natureza, o inimigo; a clausura constituiu-se como um prolongamento de vida, como uma moeda de troca exigida pela protec\u00e7\u00e3o contra a intrus\u00e3o androc\u00eantrica, contra o matrim\u00f3nio coercivo. A vi\u00fava de um soberano dedicou-lhe uma nova Igreja e um hospital. Mas esse rio, filho de uma cordilheira glaciar, existia nos interst\u00edcios do terreno, nas cavidades subterr\u00e2neas e disputando a solidez do terreno fez o mosteiro das Clarissas coimbr\u00e3s adquirir um horizonte lagunar. O claustro, as naves do templo, foram imergindo nas cheias do Mondego e o pequeno reino das Damas Pobres foi recalcitrando em diferentes pisos at\u00e9 ao seu abandono. O ref\u00fagio, a est\u00e9tica do lugar vivido, a policromia dos azulejos, a cantaria aprofundada por m\u00e3os inteligentes, as colunas, as ab\u00f3bodas de ber\u00e7o, cederam o lugar \u00e0 ru\u00edna, ao esquecimento, ao espa\u00e7o alienado pelo tempo. O ref\u00fagio tornou-se a pictura de uma inutilidade, a representa\u00e7\u00e3o de algo que j\u00e1 n\u00e3o podia ser, o emblema da decad\u00eancia de todas as obras humanas mesmo das bem-intencionadas. A ru\u00edna improdutiva, insalubre, reum\u00e1tica tornou-se no s\u00e9c. XX um tesouro de um certo tipo de vida humana, o vest\u00edgio f\u00edsico de uma organiza\u00e7\u00e3o pr\u00e9-burguesa e pr\u00e9-industrial do espa\u00e7o comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na fase final do s\u00e9c. XX, praticamente trezentos anos depois do seu abandono, o mosteiro adquire um novo estado cin\u00e9tico, uma nova exterioridade e uma nova subjectividade que o recoloca no mundo como objecto vivo: o Centro de Interpreta\u00e7\u00e3o do Mosteiro de Santa Clara a Velha.<\/p>\n<p>No desenho deste novo edif\u00edcio inscrevem-se muitos elementos da investiga\u00e7\u00e3o modernista: a evolu\u00e7\u00e3o criadora do essencialismo geom\u00e9trico que n\u00e3o mimetiza, que n\u00e3o ilustra mas que ao mesmo tempo consegue estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o narrativa com o lugar, a clareza funcional das partes, a fenomenologia do corpo que sai entrando, que toma consci\u00eancia da reversibilidade entre o interior constru\u00eddo e o exterior contemplado, vivido. Uma nave longitudinal segmentada, com vastas fenestra\u00e7\u00f5es que acentuam a fluidez e n\u00e3o o s\u00f3lido, o vis\u00edvel e n\u00e3o o escondido como propaga\u00e7\u00e3o do real no espa\u00e7o arquitect\u00f3nico. Dois corpos (ruina+ monumento), (casa+ museu) enfrentam-se e completam-se (ou desfixam-se). O tempo \u00e9 reconhec\u00edvel por aquilo que define as diferen\u00e7as entre estes dois pontos e no fluxo produzido pelo movimento entre essas categorias arquitect\u00f3nicas o espa\u00e7o supera a sua condi\u00e7\u00e3o de ve\u00edculo, de objecto e \u201cmistura-se com o mundo\u201d.<\/p>\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica para a exposi\u00e7\u00e3o que agora o CAPC organiza neste espa\u00e7o sob o t\u00edtulo de \u201cEspelho\u201d foi a condi\u00e7\u00e3o inusitada de Santa Clara ter durante tr\u00eas s\u00e9culos convivido com o seu sim\u00e9trico reflectido nas margens do Mondego.<\/p>\n<p>O estranhamento perceptivo com que se encarava a presen\u00e7a desta realidade ainda perdura na mem\u00f3ria deste espa\u00e7o. Essa rela\u00e7\u00e3o entre o objecto e a representa\u00e7\u00e3o invertida da sua exterioridade, a arquitectura \u201cvendo e sendo vista a existir\u201d, revitalizou contraditoriamente a mat\u00e9ria constru\u00edda como uma anamnese liquida, expectante, como o espa\u00e7o de uma vida anterior, terminada cujo duplo \u201cafogado\u201d, como \u201cum sal\u00e3o no fundo de um lago\u201d, era tamb\u00e9m a marca do incompleto e a invoca\u00e7\u00e3o de um regresso.<\/p>\n<p>A forma arquitect\u00f3nica existiu duplamente como congelamento de um metabolismo antropol\u00f3gico\u2014Santa Clara, a ru\u00edna, ganhara um car\u00e1cter indexical, recordando a organiza\u00e7\u00e3o do isolamento comunit\u00e1rio, a hierarquiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o humanizado- e como auto-representa\u00e7\u00e3o na superf\u00edcie lacustre. O CAPC n\u00e3o podia deixar de revisitar o potencial de ambiguidade associado com esta experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Pousada,&nbsp;Janeiro de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Linha d\u2019\u00c1gua&nbsp; A \u00e1gua \u00e9 elemento indissoci\u00e1vel da hist\u00f3ria do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Foi o avan\u00e7o das \u00e1guas do Mondego que lenta e progressivamente ditou o seu abandono. Outrora ref\u00fagio, durante quase tr\u00eas s\u00e9culos, ru\u00edna. Quando, em finais do s\u00e9c. 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