{"id":833,"date":"2014-09-13T16:12:11","date_gmt":"2014-09-13T16:12:11","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=833"},"modified":"2020-03-10T15:44:01","modified_gmt":"2020-03-10T15:44:01","slug":"joao-queiroz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/joao-queiroz\/","title":{"rendered":"<b>ahnungslos<\/b><br>Jo\u00e3o Queiroz"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Um ver que se desloca&nbsp;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma palavra \u2013 <i>ahnungslos<\/i> \u2013 interpela-nos. Uma palavra alem\u00e3 que Roberto Calasso adoptou no seu <i>La Rovina di Kasch<\/i> (livro de 1983) para nos dizer a condi\u00e7\u00e3o em que o Ocidente se encontra. Ap\u00f3s mil\u00e9nios de uma hist\u00f3ria tumultuada, vivemos \u00absem sortil\u00e9gio\u00bb, ou, de outro modo, sem sombra de pecado, culpa ou gra\u00e7a, mas tamb\u00e9m sem des\u00edgnio, eixo, sentido. Ser moderno \u00e9 assim viver sob o desencantamento do mundo que impiedosas for\u00e7as ter\u00e3o feito emergir. A arte, ou o que restar\u00e1 dela, assume-se como um lugar onde tal desencantamento tem tonalidades sacrificiais, as mesmas que Calasso procurar identificar. A beleza, sortil\u00e9gio maior, ter\u00e1 de ser eliminada. Ela \u00e9 a v\u00edtima sacrificial nesse caminho de elimina\u00e7\u00e3o e desgaste.<\/p>\n<p>No territ\u00f3rio moderno de progressiva usura e destitui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, o desenho e a pintura, na sua m\u00fatua implica\u00e7\u00e3o, parecem alicer\u00e7ar as suas pr\u00e1ticas numa reelabora\u00e7\u00e3o dos referentes. Esta reelabora\u00e7\u00e3o afirma-se como um processo complexo, polimorfo, equ\u00edvoco, feito de dissens\u00f5es. A crise da representa\u00e7\u00e3o \u00e9, nesse sentido, a express\u00e3o e a exegese deste processo. Se quisermos reter um dos seus elementos mais destacados, dir-se-ia que a crise da representa\u00e7\u00e3o vem abrir espa\u00e7o a uma renovada concep\u00e7\u00e3o do que pode ser desenhar, do que pode ser pintar, hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1105\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011130.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1105\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1105 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011130.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"550\" height=\"733\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011130.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011130-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1105\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o <em>ahnungslos<\/em>, no C\u00edrculo Sereia<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Queiroz constr\u00f3i um percurso que parece ocupar esse limiar onde a liberdade formal \u00e9 a \u00fanica regra, a regra discreta de um gesto que se faz inscrever entre sujeito e objecto para, justamente, redefinir o campo de tens\u00f5es e aporias que se destacam entre os dois termos. Disse gesto, mas podia dizer tamb\u00e9m movimento. <i>Ahnungslos <\/i>\u00e9 um conjunto de trabalhos feitos a aguarela de grafite que retomam e esclarecem uma preocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 antiga em Jo\u00e3o Queiroz, a de precisar os termos em que o <i>movimento<\/i> que o desenho e a pintura desvelam se afigura aventura e experi\u00eancia, ou descoberta e analogia, para usar uma rede vocabular que \u00e9 particularmente cara ao artista. E ser\u00e1 <i>ahnungslos<\/i> pintura ou desenho? E que regi\u00e3o \u00e9 esta onde as defini\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero se tornam um exerc\u00edcio acad\u00e9mico sem interesse, desprovido de valor cognitivo, perceptual, afectivo? N\u00e3o \u00e9 destitu\u00eddo de sentido apelar aqui \u00e0 densidade filos\u00f3fica que se inscreve no movimento.<\/p>\n<p>O corpo, sempre o <i>corpo<\/i>, ou a <i>paisagem<\/i>, s\u00e3o, afinal, tropos de uma desmontagem sistem\u00e1tica das aporias sujeito\/objecto, desmontagem essa que a fenomenologia soube explorar com grande efic\u00e1cia, e que Jo\u00e3o Queiroz, impl\u00edcita e explicitamente, convoca no seu trabalho e na reflex\u00e3o sobre o seu trabalho. Se \u00e9 certo que o pintor elege Espinosa como o seu fil\u00f3sofo, n\u00e3o deixa de reconhecer a import\u00e2ncia de Husserl e de Merleau-Ponty como figuras maiores no seu percurso. O corpo e a percep\u00e7\u00e3o, na sua rela\u00e7\u00e3o de enlace profundo com o espa\u00e7o, \u00e9, sugestivamente, um dos t\u00f3picos do trabalho de Jo\u00e3o Queiroz, mas \u00e9-o tamb\u00e9m a linguagem escrita na sua materialidade e expressividade s\u00edgnica, numa aproxima\u00e7\u00e3o que nos lembra a pintura chinesa, em particular Xu Wei (\u5f90\u6e2d) esse extraordin\u00e1rio artista do s\u00e9culo XVI que ter\u00e1 marcado profundamente o Oriente e, talvez, o Ocidente, se pensarmos, via Barthes, numa figura como Cy Twombly. A linguagem tem aqui, ali\u00e1s, uma dimens\u00e3o decisiva, quanto mais n\u00e3o seja porque, para Jo\u00e3o Queiroz, a met\u00e1fora \u00e9 um eixo fundamental de rela\u00e7\u00e3o com o mundo, sendo o corpo um dispositivo de constitui\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica do mundo. O trabalho do artista \u00e9 uma pondera\u00e7\u00e3o na nossa condi\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea do mundo. O movimento \u00e9 aqui um elemento axial, como disse. O corpo \u00e9 pensamento porque se move, parece querer dizer-nos Jo\u00e3o Queiroz. Toda a quietude do sentido radica assim num passeio, numa medita\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria e m\u00f3vel em regi\u00f5es que poder\u00e3o ser lim\u00edtrofes \u00e0s geometrias e m\u00e9tricas consagradas pela modernidade mais can\u00f3nica. N\u00e3o surpreende que o artista assinale a <i>descoberta<\/i> e a <i>agramaticalidade<\/i> como aspectos importantes da met\u00e1fora e dos seus percursos. <i>Ahnungslos<\/i> reenvia-nos tamb\u00e9m para <i>O Ecr\u00e3 no Peito<\/i>, trabalho de 1999, em que \u00e9 n\u00edtido este enlace profundo entre o corpo e a paisagem na sua generatividade anal\u00f3gica e metaf\u00f3rica. \u00c9 a densidade destas rela\u00e7\u00f5es que se encontra aqui em causa, e como nos ensinou Nelson Goodman \u00e9 a densidade, quando combinada com outros sintomas, que sugere o est\u00e9tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1106\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011133.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1106\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1106 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011133.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"550\" height=\"649\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011133.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011133-254x300.jpg 254w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1106\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o <em>ahnungslos<\/em>, no C\u00edrculo Sereia<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1107\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011137.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1107\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1107 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011137.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"550\" height=\"733\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011137.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/P1011137-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1107\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o <em>ahnungslos<\/em>, no C\u00edrculo Sereia<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o sem uma pondera\u00e7\u00e3o dos matizes que uma observa\u00e7\u00e3o destas exige, dir-se-ia que o trabalho de Jo\u00e3o Queiroz \u00e9 uma tentativa de densificar a nossa rela\u00e7\u00e3o com a paisagem ou, antes, com<i> um ver que se desloca e que \u00e9 j\u00e1 pensamento.<\/i> De outro modo, dir-se-ia ainda que Jo\u00e3o Queiroz parece afirmar uma esp\u00e9cie de dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ciladas perceptuais modernas que se abastecem numa concep\u00e7\u00e3o objectual, reificadora, e fundamentalmente desencantada, porque literal, do mundo. Regressando \u00e0 pintura oriental, o que Jo\u00e3o Queiroz exige de n\u00f3s \u00e9 que nos mostremos atentos \u00e0 impossibilidade de mapear parti\u00e7\u00f5es entre a escrita e a pintura nesta rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Desenhar ou pintar n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m escrever?, poderia perguntar-nos o artista. Parece indisput\u00e1vel que os mestres cal\u00edgrafos, quando escreviam tamb\u00e9m desenhavam ou pintavam (os termos s\u00e3o aqui permut\u00e1veis) o que observavam, o mesmo \u00e9 dizer, o que se movia, mesmo que imperceptivelmente, na natureza. N\u00e3o se tratava por\u00e9m, tal como em Jo\u00e3o Queiroz, atrever-me-ia a sugerir, de fazer justi\u00e7a a contornos ou formas, mas antes de reproduzir, nos seus gestos, os ritmos e as oscila\u00e7\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Lu\u00eds Quintais, Setembro de 2014<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RWf-NqxviFA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ver que se desloca&nbsp; Uma palavra \u2013 ahnungslos \u2013 interpela-nos. Uma palavra alem\u00e3 que Roberto Calasso adoptou no seu La Rovina di Kasch (livro de 1983) para nos dizer a condi\u00e7\u00e3o em que o Ocidente se encontra. 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