{"id":843,"date":"2014-10-18T11:07:26","date_gmt":"2014-10-18T11:07:26","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=843"},"modified":"2020-03-10T15:48:40","modified_gmt":"2020-03-10T15:48:40","slug":"antonio-azenha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/antonio-azenha\/","title":{"rendered":"<b>Our backyard<\/b><br>Ant\u00f3nio Azenha"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Brinquedos numa casa em Coimbra<\/strong><\/em><\/p>\n<p>1.<\/p>\n<p>Habita\u00e7\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de habitar &#8211; viver e ser num espa\u00e7o em que nos abriga. A ARTE \u00c9 TAMB\u00c9M UMA HABITA\u00c7\u00c3O PARA O ARTISTA, o espa\u00e7o&nbsp;preciso que esse habita e onde \u00e9.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o da habita\u00e7\u00e3o evoluiu ao longo do tempo e, paralelamente, \u00e0 hist\u00f3ria da arte. Desde logo complexificando-se, mediante compartimenta\u00e7\u00e3o e&nbsp;especializa\u00e7\u00e3o do interior.<\/p>\n<p>A sua multiplica\u00e7\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o deu tamb\u00e9m lugar aos aglomerados urbanos, lugar onde a civiliza\u00e7\u00e3o se desenvolveu em grande medida. A cidades&nbsp;definiram-se por oposi\u00e7\u00e3o ao exterior natural, num aglomerado de espa\u00e7os constru\u00eddos e livres, incluindo espa\u00e7os exteriores mas diretamente&nbsp;associados \u00e0 casa e muitas vezes vividos pelos seus habitantes.<\/p>\n<p>Bachelar fala-nos da \u201cpo\u00e9tica da casa\u201d, na forma como as nossas mem\u00f3rias das casas que habitamos nos marcam.<\/p>\n<p>Vidler por seu lado recorda-nos como a express\u00e3o \u201cuncanny\u201d de Freud, remete para uma sensa\u00e7\u00e3o mista de familiaridade e temor. Por exemplo,&nbsp;quando nos encontramos DEFRONTE \u00c1 NOSSA CASA DE INF\u00c2NCIA J\u00c1 N\u00c3O HABITADA. Como se naquele espa\u00e7o, de pequena escala, j\u00e1 n\u00e3o&nbsp;pud\u00e9ssemos albergar a nossa intimidade. Uma invers\u00e3o do \u201csublime\u201d que atraiu muitos pensadores, o que se pode ilustrar como a sensa\u00e7\u00e3o sentida&nbsp;quando sozinhos perante a imensidade de certas paisagens.<\/p>\n<p>A casa \u00e9 s\u00edmbolo do privado e da vida privada. \u201cDomus\u201d por oposi\u00e7\u00e3o \u00e1 \u201curbe\u201d, ou melhor \u00e0 \u201ccivitas\u201d &#8211; o lugar p\u00fablico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1125\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/P1011375.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1125\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1125 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/P1011375.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"550\" height=\"413\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/P1011375.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/P1011375-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1125\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o<em> Our backyard<\/em>, no C\u00edrculo Sede<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2.<\/p>\n<p>A casa \u00e9, para a crian\u00e7a, um mundo, onde se reconhece e aos seus. Um espa\u00e7o imenso que apropria e onde desenvolve as suas actividades e faculdades.<\/p>\n<p>Sem nos retermos nas fases de desenvolvimento da crian\u00e7a \u2013 do rec\u00e9m-nascido \u00e0 puberdade &#8211; tudo conleva a tal.<\/p>\n<p>Entre que as v\u00e1rias atividades, est\u00e3o as prim\u00e1rias de comer, dormir e brincar. \u201cBrincar\u201d \u00e9 anterior \u00e0 conceptualiza\u00e7\u00e3o e linguagem, s\u00edmbolo do&nbsp;humano racional maduro. BRINCAR N\u00c3O SE RESTRINGE \u00c0 CRIAN\u00c7A, e pode protelar-se na forma como jogamos a sociabilidade &#8211; por excel\u00eancia&nbsp;no espa\u00e7o p\u00fablico. Mas tamb\u00e9m no espa\u00e7o privado, o qual est\u00e1 repleto de protocolos, individuais ou emanados do exterior social. E a fam\u00edlia \u00e9 esse&nbsp;mais pequeno n\u00facleo social.<\/p>\n<p>Ao brincar, a crian\u00e7a lida e aprende a relacionar-se com o mundo. Tudo se inicia no restrito espa\u00e7o do ber\u00e7o, com movimento de olhos, at\u00e9 a&nbsp;movimenta\u00e7\u00f5es ocorridas com o desenvolvimento motor e, progressivamente, com a manipula\u00e7\u00e3o de objectos que subvertem o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>O pequeno mundo estende-se, por vezes aos espa\u00e7os cont\u00edguos do exterior. \u00c1s denominadas traseiras &#8211; o \u201cbackyard\u201d da habita\u00e7\u00e3o torna-se para&nbsp;quem dele usufrui um local m\u00e1gico onde tudo pode acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1127\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/un.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1127\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1127 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/un.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"550\" height=\"396\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/un.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/un-300x216.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1127\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o <em>Our backyard<\/em>, no C\u00edrculo Sede<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos parece desoportuno estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre o espa\u00e7o que alberga a presente exposi\u00e7\u00e3o e a hist\u00f3ria dos espa\u00e7os da arte.<\/p>\n<p>Como sabido, a arte foi uma das formas primitivas de ordenar o \u201ccaos\u201d do mundo. Progressivamente, tornou-se algo espec\u00edfico e distante do quotidiano&nbsp;do mortal. Entregue a uma suposta \u201cgenialidade\u201d do artista rom\u00e2ntico, a arte percorreu um percurso de exclusividade.<\/p>\n<p>O museu e as galerias tornaram-se nos espa\u00e7os de exposi\u00e7\u00e3o da arte por excel\u00eancia. Distantes e sobretudo congelados na sua pr\u00f3pria temporalidade.<\/p>\n<p>Bidimensionalmente pendurando arte em paredes e tridimensionalmente assentando-a em pedestais. Seria preciso o s\u00e9culo XX para TRAZER A&nbsp;ARTE PARA A VIDA E FAZER DA VIDA ARTE.<\/p>\n<p>A meio do s\u00e9culo houve um questionar dos espa\u00e7os convencionais da arte. O \u201cpop\u201d apropriou o banal quotidiano, a instala\u00e7\u00e3o e performance&nbsp;apelaram a que a vivamos, e o \u201cready-made\u201d e o \u201cconceptual\u201d sofisticaram as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas com a arte. Os \u201cateliers\u201d, e depois a rua, tornam-se&nbsp;lugares prop\u00edcios ao albergue da arte e seus desenvolvimentos. O espa\u00e7o privado, e a casa em particular, tornaram-se tamb\u00e9m em espa\u00e7os de arte,&nbsp;espa\u00e7os que o artista abre ou apropria para uma qualquer manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Manifesta\u00e7\u00f5es igualmente dignas e, eventualmente, mais genu\u00ednas.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o desta exposi\u00e7\u00e3o entende-se nesta hist\u00f3ria dos espa\u00e7os expositivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4.<\/p>\n<p>Por outro lado, os objetos escult\u00f3ricos tamb\u00e9m expandiram o seu \u201ccampo\u201d. N\u00e3o no sentido de Krauss, num caminho que passa pela \u201cLand-art\u201d, mas&nbsp;no sentido da sua pr\u00f3pria materialidade. Constru\u00eddos com uma materialidade pr\u00e9-existente, recontextualizada, adquiriram uma nova significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No presente caso \u2013 objectos escult\u00f3ricos feitos de brinquedos \u2013 a referida reutiliza\u00e7\u00e3o adquire uma profundidade signica ainda maior.<\/p>\n<p>Um brinquedo \u00e9 um objecto \u00fanico, que acompanha a crian\u00e7a NO INFINITO QUE \u00c9 TEMPO DE UMA BRINCADEIRA. Encarna o imagin\u00e1rio denso&nbsp;que as crian\u00e7as sonharam. Neste sentido, estes objectos escult\u00f3ricos podem incluso nos parecer traum\u00e1ticos \u2013 se entendidos enquanto perda de tal.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, tornados arte, entronizam o sonho dessas crian\u00e7as em qualquer espectador. Dignificam o \u201cbrincar\u201d e a crian\u00e7a na dimens\u00e3o&nbsp;partilh\u00e1vel que \u00e9 a \u201carte\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1126\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/P1011404.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1126\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1126 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/P1011404.jpg\" alt=\"OLYMPUS DIGITAL CAMERA\" width=\"550\" height=\"413\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/P1011404.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/P1011404-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1126\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o <em>Our backyard<\/em>, no C\u00edrculo Sede<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5.<\/p>\n<p>As esculturas \u201cToys Re Re-play\u201d, agora mostrada num espa\u00e7o mais convencional, ganham com esta re-situa\u00e7\u00e3o numa habita\u00e7\u00e3o, um contexto ainda&nbsp;mais pr\u00f3picio ao seu usufruto e experi\u00eancia est\u00e9tica. Os visitantes, mais que espectadores, podem expandir a sua imagina\u00e7\u00e3o \u00e0 sua inf\u00e2ncia passada&nbsp;ou ao limite do sonho.<\/p>\n<p>Remetemos tamb\u00e9m anteriormente para a rela\u00e7\u00e3o entre o brincar e a linguagem. No presente caso, a associa\u00e7\u00e3o da escrita criativa com a escultura \u00e9&nbsp;demais oportuna. Uma escrita que N\u00c3O PRETENDE EXPLICAR A ARTE, MAS ANTES EXPANDE A SUA SIGNIFICA\u00c7\u00c3O, circunscrevendo o&nbsp;espa\u00e7o do sonho. \u00c9 decididamente uma associa\u00e7\u00e3o feliz.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia est\u00e9tica proposta \u00e9 ainda alargado por outras linguagens, e o seu previsto registo em livro, mais n\u00e3o poder\u00e1 ambicionar ser do que isso&nbsp;mesmo &#8211; um mero \u201carquivo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, tenho acompanhado o trabalho desenvolvido por Ant\u00f3nio Azenha.<\/p>\n<p>\u201cOur Backyard\u201d \u00e9 um resultado coerente e consistente desse percurso. A sua exposi\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da representatividade do CAPC (C\u00edrculo de Artes&nbsp;Pl\u00e1sticas de Coimbra) mas, em particular, nesta habita\u00e7\u00e3o que alberga a institui\u00e7\u00e3o na cidade de Coimbra, \u00e9 uma escolha feliz. Incentiva-nos a viver a&nbsp;arte na sua magn\u00e2nima express\u00e3o, a sonhar e imaginar. E essa \u00e9 uma das fun\u00e7\u00f5es mais intr\u00ednsecas de uma arte que tenha sentido num momento&nbsp;pautado pelas indecis\u00f5es contempor\u00e2neas e alegada crise mundial.<\/p>\n<p>Estamos perante uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica em intimidade dom\u00e9stica, mas que n\u00e3o deixa de apelar a uma reflex\u00e3o sobre o \u201csublime\u201d p\u00fablico sobre a&nbsp;POSSIBILIDADE DE AC\u00c7\u00c3O POL\u00cdTICA DA ARTE, NOS SEUS ESTRITOS LIMITES. E mesmo aos domingos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Gon\u00e7alo Furtado &#8211;&nbsp;Coimbra, Maio 2013<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/l6lwaXHgmhI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brinquedos numa casa em Coimbra 1. Habita\u00e7\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de habitar &#8211; viver e ser num espa\u00e7o em que nos abriga. A ARTE \u00c9 TAMB\u00c9M UMA HABITA\u00c7\u00c3O PARA O ARTISTA, o espa\u00e7o&nbsp;preciso que esse habita e onde \u00e9. O espa\u00e7o da habita\u00e7\u00e3o evoluiu ao longo do tempo e, paralelamente, \u00e0 hist\u00f3ria da arte. 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