{"id":865,"date":"2014-11-22T14:19:53","date_gmt":"2014-11-22T14:19:53","guid":{"rendered":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/?p=865"},"modified":"2020-03-10T17:39:10","modified_gmt":"2020-03-10T17:39:10","slug":"joao-queiroz-e-pedro-vaz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/joao-queiroz-e-pedro-vaz\/","title":{"rendered":"<b>A beleza ter\u00e1 de ser eliminada<\/b><br>Jo\u00e3o Queiroz e Pedro Vaz"},"content":{"rendered":"<p>O paisagismo \u00e9, entre muitas outras coisas, o efeito cultural de um conflito entre a necessidade hist\u00f3rica&nbsp;de moderniza\u00e7\u00e3o e a melancolia de uma separa\u00e7\u00e3o que o fluxo nevr\u00e1lgico dos boulevards e a burocracia&nbsp;produzira; um conflito, em que a ca\u00e7a, o desporto, os banhos termais, os piqueniques, os passeios pelo campo,&nbsp;o campismo, a naturaliza\u00e7\u00e3o do week-end, constitu\u00edam a dimens\u00e3o mais mundana, mais f\u00edsica. O sujeito,&nbsp;burgu\u00eas e propriet\u00e1rio (em fuga dos processos de dessacraliza\u00e7\u00e3o, da separa\u00e7\u00e3o entre ego e totalidade que a&nbsp;revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica da sua classe inventara), redescobrira a sua animalidade nesses novos h\u00e1bitos&nbsp;mas necessitava de uma reden\u00e7\u00e3o arc\u00e1dica, de uma compensa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e o paisagismo pareceu cumprir&nbsp;essa tarefa assumindo-se como a disson\u00e2ncia pict\u00f3rica entre o pitoresco e o sublime, entre o conforto (e o&nbsp;deleite ego\u00edsta) e a trag\u00e9dia (a sensa\u00e7\u00e3o da forma natural como a perca de escala, a irrelev\u00e2ncia do destino&nbsp;humano). O orgulho da sua obra, das suas realiza\u00e7\u00f5es e o terror do seu fim e do sil\u00eancio indiferente da&nbsp;totalidade parecem alimentar a rela\u00e7\u00e3o do bom burgu\u00eas com a paisagem. Ali n\u00e3o h\u00e1 nada de seu, a sua&nbsp;identidade dissolve-se,obscurece- se, perde for\u00e7a posicional e contudo o burgu\u00eas comove-se, encanta-se; ele&nbsp;quer morbidamente reproduzir a sensa\u00e7\u00e3o \u00f3ptica, hol\u00edstica dessa perca; quer substituir os riscos, o perigo, a&nbsp;imprevisibilidade do \u201cestar l\u00e1\u201d, na fal\u00e9sia junto a um mar tempestuoso, num glaciar alpino, num canyon&nbsp;labir\u00edntico, no estio insalubre de um campo da Tosc\u00e2nia, pelo resguardo do ecr\u00e3 pict\u00f3rico. Esse perigo \u00e9&nbsp;congelado numa fic\u00e7\u00e3o: a paisagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1161\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/foto-001.jpeg.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1161\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1161 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/foto-001.jpeg.jpg\" alt=\"foto-001.jpeg\" width=\"550\" height=\"344\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/foto-001.jpeg.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/foto-001.jpeg-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1161\" class=\"wp-caption-text\">O C\u00edrculo de Artes Pl\u00e1sticas junta dois artistas pl\u00e1sticos que trabalham em torno da representa\u00e7\u00e3o da paisagem. Desenvolveram um trabalho sobre a Serra da Arr\u00e1bida por onde caminharam juntos e conversaram, um di\u00e1logo que d\u00e1 forma \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(\u2026) Pedro Vaz resiste a mostrar-nos a finitude do representado, os contornos que o fixam, que o&nbsp;estabilizam, as fotografias ficam para tr\u00e1s na sucess\u00e3o do percurso, a queda de \u00e1gua est\u00e1 intencionalmente&nbsp;desfocada e a subst\u00e2ncia l\u00edquida torna-se numa pulsa\u00e7\u00e3o de luz e cor onde a forma perde a sua&nbsp;espessura.<\/p>\n<p>O paisagismo de Pedro Vaz \u00e9 tamb\u00e9m produto de uma contradi\u00e7\u00e3o como foi o de Constable e de&nbsp;Turner, produtos culturais do capitalismo nascente e da revolu\u00e7\u00e3o industrial. Vivemos numa \u00e9poca<\/p>\n<p>p\u00f3s-fordista e o nosso quotidiano, o das nossas viagens, das nossas perman\u00eancias faz-se num territ\u00f3rio&nbsp;ocupado por \u201cmonumentos ao presente n\u00e3o-hist\u00f3rico\u201d: pedreiras transformadas em lagos contaminados,&nbsp;esplendores da industrializa\u00e7\u00e3o transformados em cemit\u00e9rios do trabalho morto, ruas inacabadas&nbsp;de bairros desabitados, campos repletos de ru\u00ednas; tudo parece convencernos que j\u00e1 n\u00e3o existe um&nbsp;palmo de terra onde o mundo natural n\u00e3o seja apenas um baldio \u00e0 espera de ser constru\u00eddo. Contudo a&nbsp;posi\u00e7\u00e3o de Pedro Vaz \u00e9 antit\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o a este monop\u00f3lio e aparente fatalismo de readymades&nbsp;sociais e tecnocr\u00e1ticos e contraria em absoluto o nihilismo econ\u00f3mico que nos configura como&nbsp;\u201crobot-produtores consumidores\u201d. \u00c9 este o enfoque ideol\u00f3gico das obras que aqui nos presentifica.<\/p>\n<p>(\u2026) N\u00e3o sem uma pondera\u00e7\u00e3o dos matizes que uma observa\u00e7\u00e3o destas exige, dir-se-ia que o trabalho&nbsp;de Jo\u00e3o Queiroz \u00e9 uma tentativa de densificar a nossa rela\u00e7\u00e3o com a paisagem ou, antes, com um ver&nbsp;que se desloca e que \u00e9 j\u00e1 pensamento. De outro modo, dir-se-ia ainda que Jo\u00e3o Queiroz parece afirmar&nbsp;uma esp\u00e9cie de dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ciladas perceptuais modernas que se abastecem numa&nbsp;concep\u00e7\u00e3o objectual, reificadora, e fundamentalmente desencantada, porque literal, do mundo.<\/p>\n<p>Regressando \u00e0 pintura oriental, o que Jo\u00e3o Queiroz exige de n\u00f3s \u00e9 que nos mostremos atentos \u00e0&nbsp;impossibilidade de mapear parti\u00e7\u00f5es entre a escrita e a pintura nesta rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Desenhar&nbsp;ou pintar n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m escrever?, poderia perguntar-nos o artista. Parece indisput\u00e1vel que os mestres&nbsp;cal\u00edgrafos, quando escreviam tamb\u00e9m desenhavam ou pintavam (os termos s\u00e3o aqui permut\u00e1veis) o&nbsp;que observavam, o mesmo \u00e9 dizer, o que se movia, mesmo que imperceptivelmente, na natureza. N\u00e3o&nbsp;se tratava por\u00e9m, tal como em Jo\u00e3o Queiroz, atrever-me-ia a sugerir, de fazer justi\u00e7a a contornos ou&nbsp;formas, mas antes de reproduzir, nos seus gestos, os ritmos e as oscila\u00e7\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>Este projecto que agora se apresenta ao p\u00fablico em Miranda do Corvo \u00e9 o resultado de tr\u00eas&nbsp;exposi\u00e7\u00f5es do CAPC com os artistas Pedro Vaz e Jo\u00e3o Queiroz, <a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/pedro-vaz\/\">Stimmung<\/a> de Pedro Vaz, com texto&nbsp;de Pedro Pousada, <a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/joao-queiroz\/\">Ahnungslos<\/a> de Jo\u00e3o Queiroz, com texto de Lu\u00eds Quintais e a exposi\u00e7\u00e3o&nbsp;colectiva <a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/raukoon\/\">Raukoon<\/a>, um projecto das Linhas Cruzadas.<\/p>\n<p>Para a constru\u00e7\u00e3o deste texto, colamos livremente excertos dos textos das respectivas exposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Pedro Pousada, Lu\u00eds Quintais e Carlos Antunes &#8211;&nbsp;Coimbra, Novembro de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<div id=\"attachment_1162\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/P_20141122_210826.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1162\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1162 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/P_20141122_210826.jpg\" alt=\"P_20141122_210826\" width=\"550\" height=\"413\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/P_20141122_210826.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/P_20141122_210826-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1162\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o <em>A beleza ter\u00e1 de ser eliminada<\/em>, na Casa das Artes de Miranda do Corvo<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1163\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/P_20141122_210843.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1163\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1163 size-full\" src=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/P_20141122_210843.jpg\" alt=\"P_20141122_210843\" width=\"550\" height=\"413\" srcset=\"http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/P_20141122_210843.jpg 550w, http:\/\/capc.com.pt\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/P_20141122_210843-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1163\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o <em>A beleza ter\u00e1 de ser eliminada<\/em>, na Casa das Artes de Miranda do Corvo<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O paisagismo \u00e9, entre muitas outras coisas, o efeito cultural de um conflito entre a necessidade hist\u00f3rica&nbsp;de moderniza\u00e7\u00e3o e a melancolia de uma separa\u00e7\u00e3o que o fluxo nevr\u00e1lgico dos boulevards e a burocracia&nbsp;produzira; um conflito, em que a ca\u00e7a, o desporto, os banhos termais, os piqueniques, os passeios pelo campo,&nbsp;o campismo, a naturaliza\u00e7\u00e3o do week-end, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":866,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[34,13,6,41,20],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/865"}],"collection":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=865"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/865\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3247,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/865\/revisions\/3247"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/866"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/capc.com.pt\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}