Obra de arte procura obra de arte para Jogo do Sérioopen call de ocupação do Museu

Como aprendemos na infância, no jogo do sério não podemos sorrir, pestanejar ou sequer desviar o olhar. Tudo isto é motivo para a penalização fatal: a derrota. Quando dois corpos se encaram no Jogo do Sério, é por demais evidente a tensão que se cria entre ambos. Não há lugar para cedências.

Neste projeto curatorial, propôs-se à comunidade artística, e não só, a sugestão de um ou mais objetos que pudessem ser parceiros de jogo da obra exposta.

Para este quarto momento, de 24 de fevereiro a 6 de outubro, procurou-se um parceiro para a obra
Hotel da Praia Grande (O Estado das Coisas)
, de Ângela Ferreira.

Depois da deliberação do júri, o quarto Jogo do Sério conta com uma obra da dupla F&G, em resposta à já anunciada obra de Ângela Ferreira. A relação entre Hotel da Praia Grande (O Estado das Coisas) e État d’urgence (estado de emergência) pareceu, ao júri, a mais apropriada tendo em conta o pressuposto curatorial, não obstante a qualidade das diversas propostas enviadas.


Joguemos ao Jogo do Sério. Um corpo em frente a outro. Devem olhar-se fixamente. Quem rir, desviar o olhar ou pestanejar perde. Estar imóvel, mas, no entanto, não estar parado: continua a jogar-se à medida da letargia. Contribui-se para uma simetria de intenções, quebrada pela assimetria à superfície.

Daniel Madeira


Ângela Ferreira, nascida em 1958 em Maputo, Moçambique, cresceu na África do Sul e obteve o seu MFA na Michaelis School of Fine Art, Universidade da Cidade do Cabo.
Vive e trabalha em Lisboa, lecionando Belas Artes na Universidade de Lisboa, onde se doutorou em 2016. O seu trabalho preocupa-se com o impacto contínuo do colonialismo e do pós-colonialismo na sociedade contemporânea, uma investigação que é conduzida através de uma pesquisa aprofundada e da destilação de ideias em formas concisas e ressonantes. Representou Portugal na 52ª Bienal de Veneza em 2007, prosseguindo as suas investigações sobre as formas como o modernismo europeu se adaptou ou não às realidades do continente africano, traçando a história da “Maison Tropicale” de Jean Prouvé. A arquitetura serve também de ponto de partida para o aprofundamento da sua longa investigação sobre o apagamento da memória colonial e a recusa da reparação, que encontra a sua materialização mais complexa em A Tendency to Forget (2015), centrada no trabalho etnográfico do casal Jorge e Margot Dias. O Mural da Unidade Pan-Africana (2018), exposto no Museu Maat Lisboa e no Bildmuseet, Umea, Suécia, foi concebido, retrospetiva e introspetivamente, para o “aqui” e o “agora”. Para além da sua própria trajetória, outras histórias biográficas são simultaneamente narradas, expostas e escondidas nesta obra. Em Dalaba: Sol d’Exil (2019), uma obra centrada em Miriam Makeba, uma das figuras mais proeminentes da luta contra o apartheid, Ángela Ferreira criou peças escultóricas baseadas nos elementos arquitectónicos do edifício de exílio onde Makeba viveu em Conakri, quase como um protótipo da relação entre a arquitetura modernista e a arquitetura vernácula africana.
As suas homenagens escultóricas, sonoras e videográficas têm feito continuamente referência à história económica, política e cultural do continente africano, ao mesmo tempo que recupera a obra e a imagem de figuras inesperadas como Peter Blum, Carlos Cardoso, Ingrid Jonker, Jimi Hendrix, Jorge Ben Jor, Jorge dos Santos, Diego Rivera ou Miriam Makeba.

angelaferreira.info


Os F&G, nascidos no Sul de França, onde ela e ele vivem atualmente, definem-se como mediterrâneos. Professores associados e artistas, esta dupla afirma uma abordagem informativa da arte em que todos participam e cada um encontra o seu lugar.
As suas histórias pessoais levaram-nos a viajar pela Europa, Norte de África e Canadá. Durante vários anos, ela e ele mantiveram laços privilegiados com Portugal, onde a dupla expôs pela primeira vez em 2021 durante a Mostra Internacional de Arte Contemporânea ART’IN LIMA.
Conscientes das evoluções da nossa sociedade e da sua complexidade, os artistas abordam assuntos que a sociedade suporta e que a põem no limite.
Testemunhas do seu tempo, ela e ele procuram conservar, através das suas obras, vestígios de histórias únicas e comuns e, ao mesmo tempo envolver os seus públicos. Entre espaços institucionais ou urbanos, F&G realizam instalações, happenings ou performances com o objetivo de questionar o peso da política, as falhas da nossa sociedade e os ferimentos infligidos nas vivências.
A sua abordagem mistura a realidade adulta com a inocência de substâncias que que satiricamente expõem questões a defender.
Socialmente empenhados e pessoalmente preocupados com os temas que abordam, a dupla defende um processo artístico ativista.

fgartiste.webnode.fr